League of Legends

Servidor e exclusão no formato: Revolta explica porque times brasileiros de LoL não chegam longe no Mundial ou MSI

Brasil garantiu bicampeonato do Rift Rivals, mas qual é o saldo em outros torneios?
@biaacoutinhoo
Beatriz Coutinho
escreve para o Versus.
Imagem: Riot Games
Imagem: Riot Games

No último domingo (8), a 2ª edição do Rift Rivals entre as regiões do Campeonato Brasileiro de League of Legends, Copa Latinoamérica Sur e Liga Latinoamérica Norte terminou com saldo positivo para o Brasil: um bicampeonato. Por 3 a 1, os brasileiros da Vivo Keyd e Kabum venceram os sul-americanos da KLG e Rebirth, confirmando o favoritismo de nosso país em relação ao nível competitivo da América Latina.

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Criado em 2017, o torneio (carinhosamente apelidado como “Libertadores do LoL”) tem como objetivo trazer experiência internacional para as equipes participantes… Mas talvez essa bagagem não seja suficiente para uma melhora na performance do Brasil a nível global no MOBA. De acordo com Gabriel “Revolta” Henud, pro player da Vivo Keyd, o campeonato está longe de trazer o conhecimento necessário para o desenvolvimento dos times.

Imagem: Riot Games
Imagem: Riot Games

Realidade versus expectativa

“No sentido de experiência, o que eu posso dizer é que vai ser muito difícil o Brasil ganhar um campeonato mundial ou um MSI. A experiência que gente teve na Coreia [referente ao bootcamp realizado pela Vivo Keyd no Oriente após o fim do 1º split do CBLoL 2018] foi brutal. Caímos na realidade de que a gente não vai ganhar”, disse Revolta.

De acordo com o jogador, um dos problemas está nos diferentes tipos de estratégia usados em outras localizações como Europa, América do Norte, China ou Coreia.

“É muito difícil e não é porque a gente não acredita, mas porque o servidor deles [de outras regiões] é muito bom, eles são acostumados com um ritmo de jogo muito rápido. Na maioria das vezes que você vê um time brasileiro jogando no mundial, você vê ele stompado [gíria cujo significado remete a massacrado] muito rápido, porque é um ritmo de jogo muito frenético, e um campeonato como Rift Rivals não vai trazer isso”, comentou o jogador da Selva da Vivo Keyd.

Para Revolta, o Rift Rivals funciona mais como uma experiência para o público - no caso de agregar conhecimento aos jogadores, isso somente se aplica a alguns cenários específicos: “NA e EU conseguem, sim, tirar proveito disso, porque já são regiões muito grandes e desenvolvidas. A gente não consegue tanto assim, porque já somos acostumados a jogar com LAS e LAN, e não tem tanta diferença.”

INTZ no IWCQ 2016 | Imagem: Riot Games
INTZ no IWCQ 2016 | Imagem: Riot Games

O servidor brasileiro: longe de tudo e de todos

Ainda de acordo com o jogador, um dos maiores problemas que faz com que o cenário nacional não cresça a nível global é o fato do servidor brasileiro estar longe de outros servidores mais fortes. Isso impede que as equipes consigam treinos melhores ou tenham acesso a diferentes estilos de jogo.

“Quando a gente foi no WildCard de 2015 e 2016, a gente já falava ‘É difícil jogar contra uma Turquia, contra uma Rússia’. Quando a gente fazia bootcamp lá, o que mais víamos era turco e russo jogando no servidor europeu, então eles tinham mais acesso a regiões maiores do que as que a gente tem”, contou Revolta.

Os jogadores da LLN, que corresponde à América Latina Norte, podem utilizar o servidor norte-americano, conhecido por ser uma região forte no competitivo… Mas isso não vai durar muito, já que a Riot Games anunciou a fusão das ligas latinas sul e norte em uma única competição e região, fazendo com que os times da LLN se mudem para o Chile. Assim, por inviabilidade de ping, os treinos na América do Norte não serão mais possíveis para os times sul-americanos.

Micael “micaO” Rodrigues, atirador da Vivo Keyd, acredita que essa mudança favorecerá o Brasil, pois existirão mais jogadores na solo queue brasileira. Revolta frisa que “eles [LLN] vão perder o conhecimento que eles pegam da América do Norte e com o tempo isso vai ser pior”.

Equipe de Dota 2 da Pain Gaming | Imagem: Pain Gaming
Equipe de Dota 2 da Pain Gaming | Imagem: Pain Gaming

O formato enraizado do circuito competitivo

Além do Brasil estar distante de servidores que poderiam agregar aos pro players, o circuito de ligas fechadas que une todos os times do mundo - os classificados por meio dos torneios regionais - apenas duas vezes ao ano, no Mid-Season Invitational e no Mundial, não facilita o desenvolvimento dos times.

Questionado sobre a necessidade de uma mudança nesse formato e de uma possível adoção do formato de Majors e Minors - como acontece no Counter-Strike: Global Offensive e no Dota 2 - Revolta afirma que esta solução “levanta questões muito delicadas”:

“Um jogador de CS não tem a segurança de ter uma infraestrutura, de ter uma vida que você consiga se manter só com sua profissão. Em um Major com 16 times, imagina o último colocado? O campeão de CS consegue ganhar muito bem, só que ele não tem uma liga, uma infraestrutura montada para mensalmente ter toda a segurança de ser um jogador profissional, de ter sua liga montada.”

Jogar contra grandes equipes pode ajudar a melhorar o nível. Um exemplo é a evolução da Pain Gaming no cenário brasileiro de Dota 2. Após retornar à modalidade em novembro de 2017, a line-up que a organização mantém participou de diversos torneios internacionais, garantiu o vice-campeonato da WESG, venceu grandes equipes e conquistou, recentemente, uma vaga para o The International, mundial de Dota 2, sendo a primeira equipe brasileira a garantir um espaço no torneio.

Durante o MSI 2018, Bruno "Brucer" Pereira, jogador da rota do meio na CNB, pediu mais compreensão da torcida em relação à participação da KaBuM no torneio. Além disso, o pro player também citou o modo como os ex-jogadores da SK Gaming, atual MiBR, chegaram ao topo do cenário internacional de CS:GO.

Ainda assim, os obstáculos incomodam. “Tem a questão da região ser fechada e você prender muito a experiência e o conhecimento de jogo somente em um lugar [...], mas a gente treina muito, justamente porque sabemos que têm certas limitações devido à região e a como o sistema de ligas funciona. Todas as vezes que a gente foi para bootcamp, aprendemos muito rápido, então acredito que temos potencial sim, mas com esse sistema realmente é difícil conseguir ir mais longe”, justificou Revolta.

Uma possível saída seria unir o sistema de ligas fechadas com o de Major e Minors, como a Ubisoft começou a fazer com o cenário competitivo de Rainbow Six Siege. Atualmente, times de todas as regiões estão disputando a 8ª temporada da Pro League e participando de qualificatórias para o primeiro Major do jogo de tiros, que será realizado em Paris - e já conta com a presença de quatro equipes brasileiras.

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KaBuM, a primeira representante brasileira no Mundial de LoL, em 2014. A equipe terminou o torneio na 14ª/16ª colocação | Imagem: Riot Games
KaBuM, a primeira representante brasileira no Mundial de LoL, em 2014. A equipe terminou o torneio na 14ª/16ª colocação | Imagem: Riot Games
Em 2015, foi a vez da Pain Gaming representar o nosso país no Mundial. O time finalizou sua campanha na 12ª/13ª posição | Imagem: Riot Games
Em 2015, foi a vez da Pain Gaming representar o nosso país no Mundial. O time finalizou sua campanha na 12ª/13ª posição | Imagem: Riot Games
A INTZ representou o Brasil em 2016, quando o time terminou o torneio na 13ª/16ª colocação | Imagem: Riot Games
A INTZ representou o Brasil em 2016, quando o time terminou o torneio na 13ª/16ª colocação | Imagem: Riot Games
Em 2017, a Team One levou o Brasil para o Mundial. A equipe finalizou sua participação na 17ª/20ª colocação | Imagem: Riot Games
Em 2017, a Team One levou o Brasil para o Mundial. A equipe finalizou sua participação na 17ª/20ª colocação | Imagem: Riot Games

O futuro

Mesmo com barreiras e muito trabalho a ser feito, ainda é possível alcançar o Mundial.

“Se eu disser que não, acho que eu nem deveria estar aqui, porque não teria perspectiva para o meu futuro”, pondera Revolta. “Acho que um dia vai dar, eu não sei como vai ser isso, a gente vai achar um meio de aprender mais, evoluir mais. Estamos em uma evolução constante, acredito que é uma questão de tempo, de renovar jogador, ter mais infraestrutura em questão de equipe, técnico.”

Presente no cenário desde 2013, o jogador ainda ressaltou a importância de investimento financeiro no circuito competitivo.

“Você vê que a América do Norte e a Europa têm muito dinheiro para investir, a gente vive num país que não tem tanto dinheiro assim para isso, então é uma questão também financeira. Não é simplesmente só um servidor, tem todo um globo que envolve tudo isso, mas acredito sim que no futuro a gente consiga chegar bem longe!”

Essa é a habilidade secreta dos invocadores brasileiros: nunca desistir.


Bia Coutinho é redatora no Versus e sonha em ver uma equipe brasileira chegando longe no mundial. Siga-a no Twitter.

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