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Sem apresentar fonte, campanha do Governo sugere que games online reduzem atividade cerebral

Vídeo faz parte de projeto do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos
@biaacoutinhoo
Escrito por
Beatriz Coutinho

Foto: Shutterstock/Reprodução
Foto: Shutterstock/Reprodução

Na última terça-feira (3), o perfil do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) no Twitter publicou um vídeo no qual afirma que uma pesquisa recente concluiu que jogar videogames pode diminuir a massa cinzenta do cérebro em uma área do órgão que pode afetar o controle de impulsos e a tomada de decisões. No entanto, o departamento não apresenta a fonte específica da pesquisa.

Leia mais:

“Você sabia que jogar online pode afetar sua capacidade de raciocínio? Um estudo recente avaliou jovens que jogaram pela internet durante um período de seis semanas. Resultado: a massa cinzenta do cérebro diminuiu exatamente na região responsável pelo controle dos impulsos e tomada de decisões. Imagina o que acontece com pessoas que fazem isso por períodos ainda maiores?”, diz a apresentadora do vídeo publicado pelo MMFDH, enquanto segura o console Nintendo Switch.

Durante o vídeo, a suposta fonte da pesquisa citada pelo Ministério aparece como um link não clicável. No entanto, o endereço eletrônico leva à página inicial do National Center for Biotechnology Information (NCBI), Centro Nacional de Biotecnologia da Informação dos Estados Unidos que funciona como uma biblioteca de pesquisas científicas. Não há nenhum link que leve especificamente à pesquisa citada pelo governo.

Um estudo feito em 2015, pelo departamento de psicologia da Universidade Normal de Zhejiang, na China, pode ser a fonte utilizada na construção do argumento feito no vídeo. Segundo a pesquisa, nomeada como “Abnormal gray matter and white matter volume in ‘Internet gaming addicts’”, “Crescimento anormal das massas cinza e branca em viciados em jogos na internet” em tradução livre, indivíduos diagnosticados com vício em jogos online apresentaram redução de capacidade cerebral.

Ainda assim, pode haver um equívoco na utilização do artigo no vídeo publicado pelo Ministério, já que a pesquisa diz respeito somente a pessoas viciadas em jogos online e não a jogadores de maneira geral. Diversas pesquisas apontam que videogames são benéficos contra transtornos como a depressão e que a habilidade nos jogos abre diversas correlações entre games e inteligência.

Uma pesquisa realizada em 2015 pela Universidade de Ciências Eletrônicas e Tecnologia da China e também pela Universidade Macquarie em Sydney, Austrália, apontou que a massa cinzenta do cérebro tende a aumentar regularmente quando jogos de ação são jogados regularmente. Nesse caso, foram analisados os cérebros de jogadores profissionais de League of Legends e Dota 2, em comparação com os cérebros de jogadores que não tinham o costume de jogar regularmente.

Ainda não existe uma resposta definitiva da comunidade científica sobre o assunto, já que diversas pesquisas sobre o aumento ou diminuição da massa cinzenta relacionada aos videogames continuam sendo realizadas.

Um estudo feito em 2017, pelo departamento de psicologia do Centro de Pesquisa em Neuropsicologia e Cognição da Universidade de Montreal, no Canadá, afirma que, na verdade, os videogames podem ser benéficos ou não para o cérebro dependendo da maneira como um jogador joga. Quando o jogador toma decisões responsivas e se adapta ao que o jogo oferece, sua massa cinzenta pode aumentar, enquanto aqueles que agem de maneira automática, tomando sempre as mesmas decisões, podem apresentar diminuição da massa cinzenta.

O vídeo publicado pelo Ministério pertence à campanha de divulgação do Desafio Detox Digital Brasil, que sugere que as pessoas se desconectem de dispositivos digitais durante todo o dia 8 de dezembro. O desafio faz parte de um novo projeto do MMFDH chamado Reconecte, cuja descrição no site do Ministério diz:

“Programa Reconecte nasce com o propósito de ‘reconectar’ as famílias e os relacionamentos sociais em geral, fazendo da tecnologia um meio facilitador desse propósito. Dessa forma, o programa propõe uma séria de projetos em diversos eixos, com o fim de promover ações que vão desde a educação nos diversos aspectos da dignidade humana, até ações que visam uma reeducação tecnológica, fortalecendo relações sociais reais, em especial a Família, promovendo assim um uso dos recursos tecnológicos de maneira inteligente.”

Diversos fãs de videogames e profissionais que fazem parte do cenário nacional de esportes eletrônicos responderam o vídeo publicado pelo governo.

O Versus entrou em contato com assessoria de imprensa do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

Quer saber mais sobre como funciona a rotina de um jogador profissional de videogame, mais conhecido como pro player? Assista ao vídeo acima.

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