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Projeto Wakanda Streamers conecta e promove influenciadores negros no Brasil

Criador da rede fala sobre importância de reconhecer a ausência de negros no cenário de esports
@helenavnogueira
Escrito por
Helena Nogueira

Foto: Wakanda Streamers/Reprodução
Foto: Wakanda Streamers/Reprodução

Não é mistério que a ausência de negros nos esports no Brasil é uma realidade. Ao assistir a um campeonato de League of Legends (LoL), Counter-Strike: Global Offensive (CS:GO) e outros jogos ou até mesmo em transmissões da Twitch, Nimo TV ou Mixer, quase não vemos jogadores que não sejam brancos.

É com o intuito de mudar este quadro que o projeto independente Wakanda Streamers atua para conectar e promover streamers negros no país. O Versus conversou com o idealizador da rede, Tales “TalixXGamer” Porphírio, que contou sobre a criação e a importânica da iniciativa, além de fatores por trás da ausência negros no cenário de esports.

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Talix tem 34 anos e é natural do Rio de Janeiro (RJ). Além de servidor público, ele mantém uma rotina de transmissões em seu canal na Twitch desde 2018. Porém, pouco tempo após dar início a sua carreira na plataforma, ele reparou algo que lhe incomodou: a dificuldade de encontrar outros streamers negros como ele.

Foi então que ele decidiu iniciar um projeto que aproximasse, apoiasse e promovesse influenciadores negros do Brasil. "A partir do questionamento sobre a escassez de negros no cenário, comecei a procurar canais negros e, apesar da dificuldade, encontrei alguns e decidi fazer uma lista. A lista foi crescendo e também a vontade de juntar essas pessoas, trocar informações, apoio, etc. [...] Em 2019 comecei a plantar as sementes do projeto, debatendo e fazendo a seguinte pergunta nas minhas lives: 'Quantos streamers negros você conhece?'".

No Twitter, o influenciador criou uma enquete com este questionamento. A pesquisa contou com mais de 3 mil votos e 44% dos usuários apontaram não conhecer um streamer negro.

A enquete não apenas comprovou a escassez e a dispersão de negros no streaming de jogos no Brasil, como conectou Talix a mais influenciadores negros. Foi então que o servidor público se juntou aos streamers Vinizera e VelhoX e, em seguida, deu início a uma rede de streamers na Twitch com o nome Wakanda Streamers - uma referência à cidade natal de Pantera Negra, super-herói negro da Marvel Comics. Em seguida, eles criaram contas para o projeto em diferentes redes sociais para que as lives dos membros da lista fossem divulgadas.

Além de propagar o trabalho de nomes negros, Tales destaca outro objetivo primário do projeto: promover a conexão das comunidades negras no mundo do streaming. "É importante que o streamer negro saiba que não está sozinho. Esse ponto é difícil de ser entendido por quem analisa de fora, mas faz muita diferença para quem passa por essa sensação. Muitos influenciadores iniciantes se sentem acuados, pois, de cara, percebem onde estão pisando. Basta abrir todas as plataformas de streaming de jogos e contar quantos negros estão em destaque. Um dos objetivos da Wakanda Streamers é atrair e incentivar novos streamers".

Outra forma que o Wakanda Streamers oferece suporte à comunidade é com orientação jurídica, de forma que os influenciadores saibam como se portar e lidar em relação ao racismo, um crime previsto por lei.

Em poucos meses desde a sua criação, o Wakanda Streamers alcançou um número expressivo de influenciadores. Atualmente, o projeto reune 88 nomes no Discord e 53 canais na Twitch. Segundo Tales, aqueles que querem participar da rede não recebem qualquer restrição de conteúdo, jogo, região e não há nenhum tipo de cobrança ou taxa. Por isso, em suas palavras, "todos os streamers negros são bem-vindos ao Wakanda Streamers".

A presença de negros no cenário de esports e games, porém, ainda não é recebida com bons olhos. Prova disto é a sessão de comentários de um dos primeiros posts do Wakanda Streamers no Facebook, em que mais de um comentário têm teor preconceituoso e difamatório em relação ao propósito do projeto e a seus participantes.

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Foto: Reprodução
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Para Talix, esta resistência às comunidades negras nos esports é um dos fatores responsáveis pela escassez de streamers negros nos esports. “São vários os fatores [causadores disto]. Podemos começar pelo fator histórico, que influencia na vida financeira e uma coisa vai puxando a outra. É complicado e talvez até impossível ser breve em relação a este ponto, pois passa por muitas questões e motivos. [...] Teríamos que falar sobre estrutura familiar, campo emocional e psicológico, autoestima, necessidade de trabalhar desde cedo, entre vários outros motivos. O que não deve ser feito em nenhuma hipótese é afirmar que é falta de interesse ou de qualidade - como muitas pessoas afirmaram no post do Facebook.

Pioneiro, o Wakanda Streamers dá início a um trabalho que busca fortalecer e integrar as comunidades negras nos esports. Tales comenta sobre a importância de iniciativas do tipo, e incentiva que outros grupos sociais também façam o mesmo.

“Sobre a importância do projeto, eu pude ouvir de vários(as) streamers negros(as) que realmente faz falta uma iniciativa neste sentido. É algo importante para nós, faz diferença. E a própria divulgação do Wakanda, a simples existência dele, já trouxe uma oposição massiva contra diversos argumentos fantasiosos e seus autores sempre se dizendo não racistas - o que seria engraçado se não fosse trágico. É muito importante que existam redes de apoio negra, feminina, LGBTQIA+, entre outras. O streaming geralmente cria uma ponte entre o streamer e seu público. Se encontrar esse público já é difícil fica ainda mais difícil alcançá-lo se ele for mais restrito, visto que preconceito é um fator limitante, pois reduz drasticamente fatia de mercado e, ainda por cima, desencoraja ou tenta desencorajar o(a) streamer através de ataques e ofensas”.

Ao ser perguntado sobre qual é o sentimento de se ver promovendo a reunião e o empoderamento de streamers negros de todo o país, o servidor público comenta sobre a alegria e a responsabilidade de liderar a função de fomentar um cenário de esports mais diverso, inclusivo e melhor para todos.

“Essa é uma pergunta que, com frequência, fica martelando na minha cabeça. Ver o alívio e a alegria de quem nos procura é uma confirmação de que estamos no caminho certo, estamos fazendo a coisa certa. Por outro lado, guardo meus receios. É uma responsabilidade muito grande, pois quem nos procura tem esperanças, anseios, sonhos, expectativas. Eu me sinto responsável não por atender a todas as expectativas, mas por proteger os integrantes e apoiá-los da melhor maneira possível. Não se trata apenas de fazer uma lista de nomes e divulgar. Para que o projeto realize seu verdadeiro potencial é necessário apoio de influencers e artistas - e isso acaba pesando em forma de preocupações. Mas faz parte da estrada. Faz parte do crescimento.”

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