League of Legends

Precisamos falar sobre a jogadora Cute

É necessário apoiar o cenário feminino!
@biaacoutinhoo
Beatriz Coutinho
escreve para o Versus.
© Reprodução
© Reprodução

No último domingo (3), a CNB colocou uma de suas equipes de base para disputar um jogo da SuperLiga de League of Legends contra a ProGaming. Em questão de minutos, o chat da transmissão das partidas explodiu com inúmeros comentários machistas e preconceituosos. O motivo? Pela primeira vez uma jogadora brasileira - Julia “Cute” Akemi - participava de uma partida oficial de LoL em estúdio.

Mas… Por que há esse tratamento da comunidade em relação a pro players mulheres? Precisamos falar sobre esse comportamento e parar de aceitá-lo como algo comum no cenário competitivo.

© Reprodução
© Reprodução

Dois pesos, duas medidas

Campeonatos profissionais de LoL acontecem no Brasil desde 2011, mas foi só agora, em 2017, que uma jogadora disputou uma partida em estúdio.

Por esse motivo, a participação da jogadora foi de suma importância (apesar de ter sido marcada pelos diversos xingamentos durante toda a transmissão). Ela abre um grande espaço para que cada vez mais mulheres façam parte desse cenário competitivo.

A CNB Trinity White tem dois jogadores Diamante 1, dois Mestres e um Desafiante - quer dizer, uma Desafiante, já que Cute possui o maior elo de toda a equipe.


Poucos abates e muito hate

A CNB perdeu de 2 a 0, em função de seus próprios erros - principalmente os do segundo jogo - e por mérito da ProGaming também, que jogou bem colocando pressão nas rotas e sendo esperta sempre que era necessário.

Ainda assim, o chat da Twitch (principalmente no primeiro jogo) foi uma mistura de insultos relacionados à função de suporte da jogadora, aos campeões que ela utilizou, menções à aparência de Cute e diversos comentários como “#voltapracozinha”.

© Reprodução | Comentários retirados da transmissão dos jogos entre CNB e ProGaming.
© Reprodução | Comentários retirados da transmissão dos jogos entre CNB e ProGaming.

O discurso de ódio piorou quando, por volta dos 2 minutos de jogo, Cute foi abatida, garantindo o first blood para os adversários.

O primeiro abate em uma partida é um bom começo, mas não define resultado de jogo. O brasileiro Álvaro "Vvert" Martins da Team One que o diga: durante Mundial de LoL, o pro player foi o primeiro a morrer para a Dire Wolves no segundo jogo da série, mas ainda assim a equipe nacional conseguiu a vitória.

Sem raciocinar direito e agindo como se o primeiro abate definisse uma partida inteira, as pessoas culparam apenas Cute pela derrota da CNB… Como se culpar o suporte pela derrota já não fosse uma velha desculpa furada.

O Malzahar de Bruno "Goku" Miyaguchi e o Ezreal de Lucas "Luskka" Felipe ficaram fortes e repletos de abates, o que por consequência deixou seus adversários da CNB sem ouro. Dessa forma, a equipe de base não conseguiu comprar itens efetivos, resultando em uma vitória da ProGaming com 11 torres a 0 e 19,5 mil de ouro a frente.

Ainda assim, Cute conseguiu se manter a salvo o suficiente para evitar o que poderia ter sido um belo ace da PRG nos instantes finais do jogo, sendo a única adversária viva.

Na segunda partida, a CNB tentou jogar o mais recuada possível. Isso trouxe diversas consequências que fizeram muita diferença no fim do jogo, como a perda de ondas de minions, que aumentou drasticamente a diferença de farm e ouro do time em relação à ProGaming.

No fim da segunda partida, Rafael "Sparked" Basi tinha 86 minions a menos que Mateus "SkyBart" Neves, Lázaro "Laz0" Fontanez tinha 46 a menos que Gustavo "Minerva" Queiroz, Álvaro "LokiFc" Ferrari tinha 55 a menos que Goku, enquanto a rota inferior - na qual Cute e Igor "Yeoj" Vieira estavam - se completava e estava apenas 23 minions atrás da dupla adversária.

Sparked e Laz0 sofreram diversos pickoffs e juntos, somaram 10 dos 15 abates que a PRG conseguiu. LokiFc e Yeoj sofreram 2 abates cada um, enquanto Cute morreu apenas uma vez.


A culpa tem dono?

O desempenho ruim da CNB tem diversas razões. Nervosismo por causa da estreia contra pro players do Campeonato Brasileiro de League of Legends, diferença de elo e experiência profissional entre os jogadores, erros individuais, falta de atenção, entre diversos outros motivos.

Mas definitivamente o fato de Cute ser uma mulher não tem nada a ver com isso.

Inúmeros jogadores profissionais já sofreram hate em algum momento de suas carreiras. Leonardo “Robo” Souza teve seu talento questionado diversas vezes quando chegou ao CBLoL, Felipe “brTT” Gonçalves recebia diversas mensagens com a palavra “aposentado” no fim de 2016, Pedro “Lep” Marcari é constantemente ligado à sua jogada falha durante o Mundial de 2014 - ainda que já tenha conquistado o vice-campeonato do 2º split do CBLoL 2016.

Todos já foram severamente criticados, todos já fizeram jogadas medíocres, medianas e incríveis, mas ainda assim, nunca foram - e provavelmente jamais serão - ridicularizados por serem homens.

Enquanto isso, o simples fato de ser uma mulher prejudica a imagem de Cute de uma maneira que cada vez mais pressão é colocada nas costas de um jogadora que pode ter um futuro incrível pela frente.


“Mulher não é competitiva” - será mesmo?

E se a jogadora lesse o chat da transmissão, ela ainda teria vontade de continuar em sua caminhada para o ramo profissional nos eSports?

© Reprodução | Comentários retirados da transmissão dos jogos entre CNB e ProGaming.
© Reprodução | Comentários retirados da transmissão dos jogos entre CNB e ProGaming.

Já vimos uma jogadora desistir do cenário competitivo pela toxicidade de pessoas que fazem parte da comunidade do League of Legends.

Um desses casos é Maria "Remi" Creveling. Em fevereiro de 2016, a jogadora pediu para deixar o time de LoL da Renegades por conta de problemas emocionais, relacionados ao estresse do hate que vinha recebendo por ser a única jogadora da League of Legends Championship Series norte-americana, em adição ao ódio por ser transsexual.

Não queremos que isso aconteça novamente.

Está na hora de discutir esse comportamento, de mudar a cabeça da comunidade e lutar contra este tipo de reação. Não é necessário esperar mais seis anos para ver uma mulher disputando outra partida oficial em estúdio.

É necessário apoiar o cenário feminino - seja ele de LoL, Counter-Strike: Global Offensive, ou qualquer outro eSport.

Ilustração: Kaol Porfírio
Ilustração: Kaol Porfírio

O Versus acredita que o eSport é um cenário para todos e todas. Matéria elaborada por Barbara Gutierrez e Beatriz Coutinho.

Mais notícias
LoL: Depois de Senna, próximos campeões serão atirador de Targon e colosso de Ionia
League of Legends

LoL: Depois de Senna, próximos campeões serão atirador de Targon e colosso de Ionia

Tem ainda um caçador excêntrico e um carregador corpo a corpo vindo por aí
Matheus Oliveira
LoL: Netflix lança documentário em comemoração aos 10 anos do game
League of Legends

LoL: Netflix lança documentário em comemoração aos 10 anos do game

Você já pode assistir League of Legends: Origins
Helena Nogueira
LoL: URF retorna ao jogo por tempo limitado e com seleção de campeões
League of Legends

LoL: URF retorna ao jogo por tempo limitado e com seleção de campeões

Modo estará disponível no jogo entre 28 de outubro e 8 de novembro
Jairo Junior