CS:GO

Opinião: O que a MIBR precisa para voltar aos tempos de glória

As mudanças precisam ser dentro e fora de jogo
Foto: MIBR/Reprodução
Foto: MIBR/Reprodução

A fase da MIBR em Counter-Strike: Global Offensive não é boa e isso não é novidade para ninguém. Depois do IEM Katowice Major 2019, a equipe formada por Gabriel "FalleN" Toledo, Fernando "fer" Alvarenga, Marcelo "coldzera" David, Epitacio "TACO" de Melo, Joao "felps" Vasconcellos e Wilton "zews" Prado (treinador) colecionou resultados muito abaixo do esperado e não dá qualquer sinal de melhora. O momento chega assustar até mesmo os torcedores mais fervorosos.

Afinal, será que os dias de glória do time acabaram? A situação é irreversível? No meu entendimento, a resposta é não. Apesar do momento não ser nada animador, ainda é extremamente cedo para bater o martelo de forma negativa. Ainda há muito o que fazer para recuperar os nossos craques e tenho algumas opiniões a respeito dos primeiros passos que eles devem tomar. Lembrando que as mudanças também precisam ser fora de jogo e não apenas dentro dele.

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Uma equipe para cuidar da equipe

O esporte é eletrônico, mas os problemas de um time começam no mundo real. Por isso, não adianta ter os melhores jogadores, miras e táticas se a parte fora do game está uma bagunça. Quando olhamos para a MIBR, mesmo de fora, é possível perceber que o caso é exatamente este.

Sendo assim, o primeiro passo para que os brasileiros possam se reencontrar com a vitória é ter uma equipe que possa cuidar de cada um deles. No momento, o profissional mais urgente é o psicólogo, que precisa lhes acompanhar tanto no dia a dia habitual quanto nas viagens - ao menos no início do trabalho. Além disso, um bom analista também viria a calhar.

No caso do psicólogo, ele trabalharia a relação dos jogadores entre si, com comentários externos, e também com a constante pressão que assola a MIBR nos torneios. O time precisa se concentrar mais, ter foco e principalmente recuperar a confiança nas suas próprias habilidades, já que todos são exímios jogadores. Para que tudo isso seja possível, a ajuda de alguém que entenda e lide com a mente humana é indispensável.

Já o analista trataria de fornecer material e dicas sobre os adversários do Brasil. É raro ver a MIBR trabalhar muitos anti-táticos atualmente, então esta seria uma mudança bem interessante no estilo de jogo deles. Enquanto isso, zews ficaria livre para focar mais no seu quinteto e menos nos outros.

Tenho plena confiança de que a médio e longo prazo, estes dois profissionais dariam conta de tirar boa parte dos pesos e problemas que estão em cima dos ombros dos players. É claro que outros membros de staff também seriam bem-vindos, de acordo com a necessidade que jogadores apresentam.

Não sei exatamente como a organização enxerga este tipo de coisa. Mas na minha visão, nada disso é gasto, e sim investimento. Inclusive, um foco que não seria novidade alguma, já que outros esportes mais consolidados como o futebol oferecem uma grande estrutura para os seus atletas. No esport, a tendência é seguir os mesmos passos.

Wilton "zews" Prado, treinador da MIBR. Foto: HLTV/Reprodução
Wilton "zews" Prado, treinador da MIBR. Foto: HLTV/Reprodução

Estratégia usada pela Astralis: menos é mais

Em outro texto opinativo, comentei sobre a estratégia de utilizada pela Astralis: menos é mais. Ou seja, menos campeonatos se tornam em mais títulos. Isso se dá por conta da logística bem pensada dos dinamarqueses, que optam por menos participações e mais tempo para treino e descanso. Quando falamos de Made in Brazil, claramente todos estão sobrecarregados por lá, com tantas viagens e eventos. E a tendência é piorar. Por isso, eles precisam adotar esta medida urgentemente.

Só para se ter uma ideia, farei um rápido resumo do cronograma e das participações da MIBR neste começo de ano:

- 20 de fevereiro até 3 de março: IEM Katowice Major (Polônia). Este foi o começo de temporada e eles apresentaram boas exibições, chegando longe na competição e batendo de frente com a Astralis;

- 11 até 17 de março: WESG 2018/2019 (China). Fizeram uma longa viagem até o outro lado do mundo com espaçamento de menos de uma semana. No local, fizeram uma exibição fraca e foram eliminados pela então desconhecida Windigo;

- 22 e 23 de março: BLAST Pro Series São Paulo (Brasil). Com um tempo ainda mais curto, realizaram outro trajeto gigantesco da China para o Brasil e não conseguiram nenhuma vitória diante da sua torcida;

- 30 de março até 7 de abril: Starseries i-League S7 (China). A terceira duradoura viagem em sequência, no período de um mês. Campanha de uma vitória e três derrotas seguidas que resultaram em mais uma eliminação brasileira na fase de grupos;

- 12 e 13 de abril: BLAST Pro Series Miami (Estados Unidos). Quarta grande viagem seguida - da China até os EUA - para disputar uma competição apenas cinco dias após a anterior;

- 30 de abril até 5 de maio: IEM Sydney 2019 (Austrália). Pela primeira vez em quase dois meses, terão cerca de uma semana e meia para descansar e reverter todo o estrago feito anteriormente, seja em seus corpos, mentes e até no jogo, já que precisam se renovar e voltar um novo time. Será que é possível realizar tudo isso no mais alto nível, neste curtíssimo espaço de tempo, e ainda fazer uma viagem do continente americano para a Oceania, para mais uma disputa? Já adianto que é no mínimo improvável.

Deu para ver o quão estranha está a logística? Não há tempo para descanso, treino e muito menos evolução. É um ritmo frenético que prejudica tanto a equipe como um todo, quanto os atletas e sua saúde. É impossível para a MIBR, Astralis, Liquid ou qualquer outro time do mundo viver esta rotina e ao mesmo tempo querer ser o melhor do mundo com uma line-up relativamente nova.

Querendo ou não, a Astralis é um bom exemplo a ser seguido. Foto: ESL/Reprodução
Querendo ou não, a Astralis é um bom exemplo a ser seguido. Foto: ESL/Reprodução

Mudanças dentro de jogo

Enfim, chegamos ao CS:GO. O terceiro e último passo que a MIBR precisa alcançar, mas apenas se tiver completado os dois anteriores. Sendo assim, teoricamente, aqui estamos em um período em que táticas estão uma bagunça, mas tudo fora de jogo está encaminhando ou alinhado. Um trabalho perfeito para FalleN, zews e o novo analista realizarem juntos.

Na minha visão, há três urgências que devem ser vistas primeiramente pelo trio:

- Posicionamentos de CT: Os bombsites solos tem se mostrado arriscados e pouco efetivos, então é algo que precisa ser revisto. Porém, alguns bombsites específicos de duplas ou trios, como o A da Inferno, também precisam mudar completamente. Há pouca sinergia entre os companheiros, raros momentos de cross-fire e quase nenhum setup defensivo diferenciado do habitual. Já falando mais especificamente, acredito que Fer precise voltar a ter um pouco mais de liberdade e fazer o que faz de melhor: coletar informação e deixar seu time a um, dois, três passos na frente do outro.

- Lado terrorista: O lado de terrorista precisa urgentemente ser fortalecido como um todo, tanto com táticas novas para os melhores mapas, quanto completas alterações nos mais fracos. O draft dos brasileiros é previsível e isso dá uma enorme vantagem para leituras e anti-táticos a seus oponentes. Por isso, a volta da Vertigo e focar realmente na Nuke podem ser uma boa oportunidade e uma carta na manga para se especializar antes da concorrência.

- Execução clássica e mudança de padrão: Por fim, é hora de tornar as entradas em fim de round uma quebra de padrão, em vez de ser o próprio padrão. Todos já esperam isso da MIBR e acabam counterando facilmente o estilo brasileiro. Um novo, de preferência mais solto e maleável, precisa ser adotado por coldzera e companhia para surpreender e dificultar a leitura do inimigo, que tem sido o maior problema deles ultimamente.

Estas são as minhas opiniões, é claro. Porém, FalleN e zews conhecem como a palma de suas mãos todas as peças que têm na equipe e são estrategistas natos. Juntos, com muita calma e tempo, será possível reformular tudo que eles vem fazendo até aqui e colocar novamente a MIBR nos trilhos. Isso sem esquecer do trabalho do analista, que permitirá um anti-tático mais forte nas maiores brechas adversárias. Afinal, CS:GO é um jogo em que errar custa caro, por isso, saber em que os jogadores do outro lado mais erram pode ser fatal.



Jairo "Foxer" Junior é redator do Versus. Siga-o no Twitter em @Foxer_JJ.