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Quebrando estereótipos, a técnica de 23 anos quer mudar o cenário. Foto: Acervo pessoal

Determinação e superação: essas são duas palavras que descrevem a trajetória de Olga Rodrigues, a primeira coach transsexual do cenário de Counter-Strike: Global Offensive no Brasil.

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Conhecida como “drtt” graças ao seu passado no cenário competitivo como pro player, Olga participou de times como a Remo Brave e SiteCs, onde chegou a vencer até a Brasil Game Cup 2016. Muito além do sonho de viver de eSports, a jogadora tinha outra aspiração: a sua identificação como mulher dentro e fora do universo de CS:GO.


Como tudo começou

Foto da época de pro player de Olga, quando ainda atendia pelo nome de Lucas. Foto: Acervo pessoal

Apesar de aparentemente ser nova no cenário, a história de Olga no CS:GO começou no início de 2016, quando ainda se identificava como homem.

Lucas “drtt” Rodrigues (como ficou conhecida no cenário) teve a primeira experiência profissional como pro player na Dai Dai, equipe que ajudou a subir para a Liga Pró da Gamers Club (GC) aos 21 anos.

Posteriormente, jogou pela SLK Gaming, SiteCs e Remo Brave - equipe que até então só havia batido na trave em semifinais de campeonatos. Este foi o momento no qual drtt ganhou mais reconhecimento após sua entrada no competitivo, já que na época a Brave venceu a Liga Pro da GC em cima da Team One, e em seguida conquistou o caneco da Brasil Game Cup 2016 em São Paulo.

Mesmo jogando competitivamente por cerca de um ano e obtendo sucesso, a falta de estrutura das organizações e problemas pessoais começaram a pesar no profissional.

“Em relação ao cenário, eu não estava muito confiante de conseguir alguma coisa, e ao mesmo tempo tive problemas familiares por conta da minha sexualidade. Achei melhor fazer o que eu achava ser melhor para mim mesma”, contou com exclusividade ao Versus.

O processo de transição afetou bastante a carreira de Olga. Ao se identificar como mulher em 2017, a até então pro player se afastou do cenário competitivo de CS:GO e partiu em uma jornada de autoconhecimento e aceitação.

"Eu já pesquisava sobre tratamento hormonal e comecei a tomar por conta própria. É muito arriscado, mas ia demorar pra conseguir um apoio médico. Não consegui continuar no cenário porque eu vendi peças do meu PC."

Para conseguir os medicamentos, Olga trabalhou e saiu da casa de seus pais, que não a apoiavam no processo de transição de gênero.

"Na casa nova nem tinha internet. Vim de pais de classe média e sai pra morar na favela mesmo, em cima da biqueira. Ser uma trans em qualquer lugar é violento."

De acordo com ela, muito do que aconteceu nesta época a fortaleceu ainda mais. Após organizar sua vida, ela conseguiu voltar para o cenário competitivo de CS:GO.

O retorno

Olga ultrapassou barreiras de gênero e treina um time feminino. Foto: Acervo pessoal

“Busquei o PC na casa da minha mãe, arrumei e voltei a falar com as pessoas do cenário. Queria voltar e melhorar o cenário feminino, participar e dar toda a energia que eu podia para ver as 'minas' tendo oportunidades tão boas quanto a dos 'caras'.”

Não muito tempo depois, Olga recebeu algumas propostas para atuar como técnica no cenário competitivo feminino de CS:GO. Apesar de ainda sentir falta de jogar como pro player, ela acredita que atualmente não existe espaço para equipes mistas no cenário competitivo do jogo de tiros.

“Duvido que deixariam que eu jogasse em um time de acordo com o meu gênero. Na verdade, eles tem que deixar, mas eu vejo muitas pessoas que ainda não aceitam isso”, declarou.

“Eu sei que tem meninas muito boas jogando aqui e que não têm chance de jogar em times maiores. Isso é algo que eu gostaria de mudar, de fazer essa quebra de divisão de gênero para montar os times.”


Focando no que importa

A trans, que está em período de testes na Bootkamp Gaming, atualmente é responsável por treinar as jogadoras Amanda "AMD" Abreu, Claudia "santininha" Santini, Karina “kaah” Takahashi, Jessica "fly" Pellegrini e Shayene “shAy” Victorio.

 Segundo Olga, um dos maiores objetivos de sua entrada para o cenário feminino é auxiliar a melhora do competitivo por meio de suas as experiências passadas em outras organizações.

“Acho que é importante ter suporte, apoio e essa visão de se cobrar um pouco mais. Às vezes [as organizações] só querem usar a imagem delas [jogadoras] e não ligam muito para resultado, por isso que também às vezes não dão muito valor para o trabalho delas.”



Thais Stagni e Siouxsie Rigueiras acreditam na igualdade de gênero nos eSports. Siga-as no Twitter em @thaistagni @SRigueiras.

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