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“Nós surdos somos capazes”, diz Vinícius, deficiente auditivo que sonha em ser pro player

Acessibilidade importa!
@biaacoutinhoo
Beatriz Coutinho
escreve para o Versus.
Vinícius, de casaco cinza, e Ramon, de casaco preto | Imagem: Patrícia Mani
Vinícius, de casaco cinza, e Ramon, de casaco preto | Imagem: Patrícia Mani

De acordo com dados de 2015 da Organização Mundial da Saúde (OMS), 28 milhões de brasileiros possuem algum nível de surdez. Se você não é surdo, tente se lembrar da última vez que viu um intérprete de Libras - a língua brasileira de sinais - com exceção do horário de propaganda eleitoral na televisão. Eles quase não aparecem nos programas que são transmitidos na TV, nos vídeos publicados na internet ou em grandes palestras.

Durante a Gamecon, que teve como objetivo reunir "esports, cultura gamer e empreendedorismo em um único lugar", realizada entre 7 e 11 de novembro, todas as palestras do evento contaram com a presença de uma intérprete de libras, algo que fez toda a diferença para Ramon Oliveira, de 22 anos, e Vinícius Portela, de 19.

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Acessibilidade importa!

De acordo com os artigos 67 e 76 da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Nº 13.146/2015), é necessário garantir que pronunciamentos oficiais do governo, propaganda eleitoral e debates transmitidos por emissoras de televisão possuam subtitulação por meio de legenda oculta, janela com intérprete da Libras ou audiodescrição.

Não há obrigatoriedade em relação aos programas que cada emissora de televisão transmite e nem quando se trata de eventos comuns. Ainda assim, a Gamecon optou por oferecer à comunidade surda um grupo de intérpretes em todos os dias da feira, o que tornou o evento muito mais especial para Ramon e Vinícius.

Intérprete de libras, à direita | Imagem: Raquel Camargo
Intérprete de libras, à direita | Imagem: Raquel Camargo

“Para mim, foi tudo muito emocionante e divertido”, disse Ramon. “Eu consegui ficar ainda mais por dentro de cada assunto tratado, pois todos foram abordados muito bem nos painéis e palestras. Acho que eu só me motivei ainda mais a convencer meus amigos de montarmos equipes e participar de campeonatos também.”

“Isso tudo acaba aumentando nossa auto estima”, contou Vinícius, que embora estivesse muito feliz, deixou claro que nem sempre somente o intérprete de libras é a solução de todos os problemas. “Não conseguimos acompanhar tudo 100%, como os vídeos que não tinham legenda ou janela de intérprete. Ainda assim, foi muito bom e nos motivou bastante a também motivar outras pessoas.”

Além da acessibilidade, a representatividade também precisa ser mais incluída nas pautas que falam sobre esportes eletrônicos. Embora tenham gostado do evento, Ramon e Vinícius afirmaram que não há palestras ou informações específicas sobre campeonatos para pessoas surdas.

“Eu sou uma pessoa que joga, mas não ouvi nada a respeito de torneios para surdos ou algo que envolve alguma acessibilidade que permita um surdo participar [dos campeonatos]. Os temas eram muito interessantes, mas ainda acho que falta este foco na pessoa surda também”, comentou Ramon.

“Eu tenho um amigo chamado Vanderlei, que é pro player. Ele costuma não só jogar, mas também tentar unir a comunidade surda para que ela apareça mais e jogue mais também. Com mais acessibilidade, acho que isso se tornaria cada vez mais comum”, finalizou o jogador.

Intérprete de libras, à direita | Imagem: Raquel Camargo
Intérprete de libras, à direita | Imagem: Raquel Camargo

É possível adaptar os esports para as pessoas surdas?

De acordo com Vinícius e Ramon, “é bem simples na verdade”. Os amigos explicaram que para pessoas surdas, a vida se torna muito visual. Além de contarem com a libras, eles conseguem desenvolver estratégias para diversos jogos, como o Counter-Strike: Global Offensive. Seguindo a questão da visão, os jogadores afirmaram que seria muito importante que os esports oferecessem webcams aos surdos, para que eles pudessem colocar a visão em relação aos outros em prática.

“Também é importante falar que os surdos usam fones de ouvido. Por mais que eles não ouçam, pode-se sentir a vibração que o som causa no fone e isso ajuda muito. Principalmente nos mais experientes, há uma diferenciação de cada vibração e isso faz com que a gente consiga jogar normalmente”, explicou Vinícius.

Como a língua falada por meio das cordas vocais é a mais utilizada nos esports, Vinícius acredita que o preconceito das pessoas em relação aos surdos está ligado à falta de informação:

“Nós entendemos que a falta de comunicação é um fator impeditivo, mas acreditem em mim: todos nós surdos somos capazes! Por mais que a gente não consiga se comunicar como a maioria, que é falando é ouvindo, nós achamos outras maneiras de jogar e de nos sairmos bem como qualquer outra pessoa. Não precisam ter medo de nós.”

Vinícius e Ramon fazendo o sinal referente a "esports" em Libras | Imagem: Patrícia Mani
Vinícius e Ramon fazendo o sinal referente a "esports" em Libras | Imagem: Patrícia Mani

“Nós aceitamos as regras que são inicialmente impostas nos jogos, mas a ideia é que a gente possa ter uma participação mais interativa. Por exemplo: existe uma federação de desportos para surdos e ela oferece campeonatos de diversas modalidades anualmente. Porém, elas não são exclusivas para surdos, os ouvintes também podem participar, se adaptando ao que é proposto aos surdos. Então, o contrário também deveria acontecer no esport: os surdos devem jogar os games, se adaptar e, de diferente, ter apenas um canal de comunicação visual. De resto, tudo é possível para nós evoluirmos”, finaliza Vinícius.

Antes mesmo dos esportes eletrônicos em si, Vinícius acredita que algumas modificações também precisam acontecer nos jogos em si: “Alguns games fazem adaptações de legenda, por exemplo, no entanto, por conta da legenda ser português, dificulta um pouco, pois a língua de sinais tem uma estrutura muito única e não necessariamente nós vamos entender o que é dito exatamente no português, então acaba não facilitando tanto quanto poderia”.

Dando um exemplo, Ramon comentou sobre o caso do CS:GO: “Algumas indicações poderiam ser maiores. O mini mapa, a indicação do plant da C4, entre outras coisas. Como somos muito visuais, ter estas coisas importantes com um maior destaque nos ajudaria, com certeza”.

Para finalizar a entrevista, Vinícius deixou claro que embora os obstáculos sejam difíceis, a vontade de crescer como pro player é forte.

“O meu sonho é participar de um campeonato de esports e que outras pessoas surdas consigam se inserir neste meio. O público surdo, infelizmente, acaba ficando muito em casa justamente por conta da falta de acessibilidade. Com isso, essas pessoas acabam não desenvolvendo muitas coisas importantes nelas. A ideia é nos juntarmos, sermos a força um do outro e atingirmos nosso potencial, que nós sabemos que não é baixo”.


*Esta entrevista foi realizada com a ajuda da intérprete de Libras Regiane de Novais.

Barbara Gutierrez é editora-chefe e Bia Coutinho é redatora no Versus. Siga-as no Twitter em @bahgutierrez e @biaacoutinhoo.

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