League of Legends

Murilo “Takeshi” Alves: O adeus do capitão

Com uma carreira extensa e estável, o pro player pendura o mouse e anuncia aposentadoria
@helenavnogueira
Helena Nogueira
escreve para o Versus.

Meu nome é Murillo Alves, o Takeshi, e hoje anuncio minha aposentadoria.

Eu jogo League of Legends profissionalmente desde 2013. Hoje tenho 26 anos, mas naquela época eu tinha 20, quando nosso cenário era muito diferente daquele que conhecemos hoje.

Mas antes de chegarmos nesse ponto, quero contar como cheguei a Summoner’s Rift.

Nasci no Distrito Federal, na cidade de Taguatinga. Minha infância foi muito ao redor de jogar com os amigos - seja com uma bola no pé ou com um controle de videogame na mão. Não a toa, minha casa era o point em que toda a molecada se encontrava e a gente competia entre si.

Já naquela época, o jogo que eu era bom eu queria me tornar realmente bom.

Sempre fui muito apaixonado pelo mundo dos games. Quando pequeno, tive diferentes consoles e um computador - e foi nele que comecei a ser um pouco mais tryhard. Em certo ponto, meu grupo de amigos passou a jogar Ragnarok, um game que joguei por muitos anos. Passei muitas das minhas férias matando bichos e pegando cartas.

Até que chegou o dia que um amigo nosso disse: “Tem esse tal de game chamado League of Legends, que o pessoal está dizendo que é legal. Vamos tentar?”.

Não deu outra: migramos para o LoL e ali descobri meu mundo.


Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Desde o começo, me dediquei muito ao jogo. Nos primeiros meses, já comecei a estudar matchups, a conhecer todos os campeões, a aprender estratégias… foi ali que comecei a conhecer as pessoas mais antigas do cenário: MiT, Kami, Leko, yetz - todos esses caras já jogavam naquela época.

Era um cenário competitivo que já existia, mas não era nada profissional - na verdade, muito longe de profissional.

Meu time e eu jogávamos muitos campeonatinhos valendo Riot Points. Lembro de alguns que ganhávamos 100 reais e, mesmo tendo que dividir entre 5 pessoas, receber essa premiação era uma glória.

Os campeões que eu pickava eram os que funcionavam melhor na rota do meio, então acabei assumindo essa função no time.

Éramos eu, Danagorn, lep, GSTV e peru: cinco moleques que jogavam. O mesmo grupinho do Ragnarok. Não tínhamos manager, CEO, treinador, psicólogo... não contávamos com qualquer incentivo, seja de familiares ou de qualquer patrocinador.

Sempre tive muito carinho por todas as line-ups que fiz parte, mas naquela época “raiz” a gente era muito mais próximo porque qualquer resultado dependia completamente de nós. Se não fizéssemos acontecer, não teríamos hoje um psicólogo para acalmar o time, não haveria manager para marcar treino. A competição exigia que fossemos próximos um dos outros e pró-ativos.

Adotamos a tag “Awake” e jogamos os campeonatos que existiam na época. Foi então que, no final de 2011, aconteceu a classificatória da Intel Extreme Masters. Seria disputada em São Paulo (SP), e conseguimos uma vaga.

Foi nosso primeiro torneio presencial, mas não pude fazer parte, porque não tinha condições de ir. Minha mãe também não apoiava tanto a minha carreira na época. Ela falou: “Você, indo para São Paulo para jogar? Não, você vai ficar em casa”.

Em 2012 passaram a acontecer os primeiros torneios oficiais de LoL. Da Awake, mudei para a Insight e depois segui para a Nex Impetus, em que conseguimos ganhar uns cinco ou seis campeonatos seguidos.

Foi um time que se destacou bastante, tanto que chamamos a atenção do CNB eSports Club.


Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Neste ponto percebi pela primeira vez que a parada estava começando a se profissionalizar. O CNB chegou com um contrato e propôs ajuda de custo - o que na época pra gente era assim, incrivelmente absurdo!

No CNB começou o meu histórico com vice campeonatos, mas também foram meses de muitas vitórias. Vencemos o desafio internacional da BGS de 2013, no que foi uma revanche contra a paiN Gaming. Aquele time que eu participava conseguiu a redenção, e este momento ficou marcado em mim porque me fez dizer: “É aqui que quero estar”.

Foi a época também do kombão, quem lembra? Vimos ele pela primeira vez em São Paulo, quando todos deixaram suas casas para morar na gaming house. Lembro como se fosse ontem da gente saindo do aeroporto de Guarulhos, quando vimos uma kombi com o adesivo do CNB estacionada. O Mana virou pra mim e falou “mano, não é possível que essa kombona vai ser nossa”.

Sim, ela foi nossa e nela vivemos muitos momentos divertidos e marcantes. Foi no teto daquele “kombão” que batemos quando tivemos momentos de vitória.

Foi nessa época, inclusive, que surgiu meu apelido de capitão. Eu não era de fato o capitão daquele time, mas era o cara que deixava os meninos pularem o muro quando precisava, ou abria a porta de madrugada quando eles voltavam. Sempre fui o cara que coordenava o grupo e assumia a posição de liderar a conversa com a organização, de expor as coisas que poderiam ser melhoradas - por mais que eu fosse o mais novo daquele grupo.

Em 2013, o Pato Papão lançou um vídeo em que ficava repetindo “capitão Murilão”. O apelido pegou: depois disso, as pessoas começaram a me chamar mais de capitão do que de Takeshi, meu nick de fato.

Em 2014, a competição se tornou mais séria. Começaram a acontecer campeonatos brasileiros completos. Eu já me considerava um profissional de League of Legends até então, mas foi ali que realmente deixei para trás minha vida em Brasília. Tranquei a faculdade e comecei a me dedicar integralmente ao LoL.

Depois de outro vice campeonato, mudei do CNB para a Keyd Stars, o time em que permaneci por mais tempo em toda a minha carreira. Foram três anos e meio e, nesse tempo, vi muitos jogadores irem e virem. Mas eu permaneci. Ali, me tornei próximo da organização e sempre estava auxiliando na formação das equipes.

Então veio 2017, o ano em que fui para a paiN. Foi uma época cheia de altos e baixos: venci o Rift Rivals e tinha lutado pra não ser rebaixado na Keyd. Com a mudança de equipe, eu disse “confia na call” e topei o desafio de mudar da rota do meio para a do topo. Porém, terminamos o split com apenas uma vitória e fomos rebaixados.

As coisas começaram a dar errado na minha carreira.


Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Sempre cheguei à maioria das finais até então, mas em 2018 meu desempenho caiu. A comunidade começou a pedir por renovação de jogadores, e senti esse baque ao lado daquele que o rebaixamento me proporcionou.

Na Team oNe, voltei a jogar na rota do meio. A gente não conseguiu a classificação logo de cara, mas conseguimos subir para o CBLoL no 2º split de 2019. Nele, contamos com diversos problemas e tivemos resultados ruins logo nas primeiras semanas. Então, veio outro rebaixamento.

Não esquenta, são coisas da vida. Da minha parte, não encerro minha carreira com sentimento de tristeza. O que realmente me faz parar por aqui é que não tenho mais a mesma vontade de estar jogando League of Legends.

Para mim, um pro player não pode se contentar com seis scrims e duas soloqs diárias. Deve haver muito mais dedicação que isso, e sei que em algum lugar existe alguém que pode estar na minha vaga, alguém cheio de vontade de ganhar.

A questão é que não quero ser um jogador profissional sem aquilo que tinha em 2013. Mas não vou sair do cenário. Ainda amo o competitivo de LoL - gosto de assistir, de comentar, de ensinar... devo tudo ao League of Legends.

O Takeshi foi um cara que saiu lá de Taguatinga, conheceu diversos países, fez muitos amigos e viveu coisas incríveis. O Murilo de 2013 não podia olhar para uma câmera que ficava sem desenvoltura - ano passado, eu apresentei um reality show.

Tem muita coisa que esse mundo me proporcionou e, por isso, não guardo comigo arrependimento algum de ter trancado a faculdade e batido de frente com os meus pais para seguir meu sonho.

Penduro meu mouse feliz e com a consciência tranquila. O LoL representa minha história e quero conseguir retribuir tudo que vivi para a comunidade de alguma maneira.

Pode ser um adeus por ora, mas não se preocupem: o capitão continuará aqui.

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