CS:GO

Jogadoras denunciam machismo e transfobia no GirlGamer Festival; BBL responde

Regras abusivas impediram a participação de mulheres trans e foi exigido uso do PlaysTV
@helenavnogueira
Helena Nogueira
escreve para o Versus.
Foto: Girl Gamer/Reprodução
Foto: Girl Gamer/Reprodução

Em 2019, o GirlGamer Esports Festival, conhecido mundialmente como um dos principais campeonatos femininos de esports, recebeu uma etapa no Brasil. O torneio, que conta com League of Legends (LoL) e Counter-Strike: Global Offensive, é realizado desde o mês de agosto pela Bad Boy Leeroy (BBL) e recentemente foi alvo de críticas da comunidade. Segundo jogadoras participantes, o campeonato conta com regras abusivas, misóginas e transfóbicas - como o uso de software de reconhecimento facial e requerimento de laudo médico para mulheres transexuais.

O Versus apurou o caso e buscou pronunciamento da BBL, que afirmou que "não trata de forma diferenciada jogadoras e jogadores". Nesta reportagem, organizações e jogadoras contam os obstáculos que enfrentaram durante o campeonato.

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A primeira das denúncias é quanto à obrigatoriedade do uso do Plays.tv - um software que grava a tela das participantes - durante as partidas. O programa pode ser utilizado para a comprovação de identidade do jogador. A Athena's e-Sports, que disputou o qualificatório de League of Legends do GirlGamer Festival, criticou o uso do aplicativo em um comunicado no Facebook que explica o motivo da equipe ter abandonado a disputa. Ao Versus, o time se pronunciou em conjunto e deu mais detalhes sobre o porquê questionaram a regra.

"Além de pesar consideravelmente no desempenho do PC, [o Plays.tv] não serve como evidência para o objetivo proposto pela organização do torneio, tendo em vista que é apenas um vídeo do ponto de vista da pessoa que estava jogando, o que não confirma sua identidade. Além disso, os replays precisam ser enviados em até duas horas - ou seja, se a jogadora possuir um PC ou Internet não tão potentes, é desclassificada sem dó nem piedade. Acreditamos que este é um processo invasivo e a necessidade de provar para os outros que não tem ninguém jogando por nós é humilhante."

Segundo a organização, as jogadoras do time quase abandonaram a disputa quando souberam do uso obrigatório do Plays.Tv, mas resolveram permanecer no torneio - apesar de possuírem diversas reclamações em relação ao aplicativo.

"Queríamos ter saído do campeonato neste mesmo dia, mas quando conseguimos nos adaptar para jogar no horário completamente insensato que eles propuseram, resolvemos engolir seco – como infelizmente muitas vezes ainda precisamos fazer – e seguir o sonho. Mas não deu. Infelizmente essa atitude machista foi apenas uma das diversas falhas imperdoáveis da organização, que se mostrou desorganizada, despreparada, homofóbica, preconceituosa, insensível e exclusiva."


Giovanna "Hetza" de Moraes, jogadora trans que se inscreveu, mas foi impedida de disputar o campeonato de LoL, disse que não é contra o uso do aplicativo, mas discorda da obrigatoriedade do programa no torneio.

"Nunca tive problemas com a questão de usar o PlaysTV, mas na essência da regra considero errado. Isto é uma forma indireta de dizer que se uma garota está jogando bem, ela precisa provar que é ela jogando. Parece um discurso do tipo 'mulher não sabe jogar'".

Outra participante da modalidade, Karolina “Lovelynha” Viana, também não concorda com a regra, questionando sua capacidade de comprovar a identidade do jogador: "Não sei muito bem como funciona o software e acho ele bem questionável tanto em campeonatos femininos quanto em qualquer outro. Uma garota conseguiria facilmente se passar por outra. Se fosse realmente adequado, seria usado em todos os campeonatos online, independente de ser feminino ou não".

Além do aplicativo, as jogadoras relataram que passaram por outras etapas de verificação de identidade. Para competir no qualificatório, a participante do GirlGamer teve que realizar cadastro em três sites diferentes, enviar de documentação e um vídeo mostrando seu rosto.

Ao Versus, a BBL se pronunciou sobre a regra que envolve a obrigatoriedade do Plays.tv. Segundo a empresa, o uso do programa foi uma solicitação das próprias jogadoras.


“A BBL não trata de forma diferenciada jogadoras e jogadores. O uso do programa PlaysTV durante o campeonato GirlGamer de League of Legends é obrigatório e foi uma solicitação das próprias jogadoras. O software grava a tela da jogadora e o microfone, como forma de verificação das equipes. Algumas jogadoras, inclusive, reclamaram dos jogos classificatórios sem o PlaysTV ou outro método de verificação in game. O uso de programas para verificação dos times é uma prática utilizada em diversos torneios ao redor do mundo. O uso do PlaysTV durante as partidas do torneio GirlGamer não é uma medida de ataque a minorias, e sim uma forma de deixar as jogadoras mais seguras".


Outro aspecto denunciado pelas jogadoras foi a postura inadequada em relação a participantes transexuais. Hetza conta que, inicialmente, o regulamento do torneio limitava a inscrição para "mulheres portadoras de cromossomos XX". A regra, que aparece em prints do rulebook compartilhados na comunidade (veja abaixo), foi então alterada poucos dias antes do início da fase classificatória, quando se tornou necessária a entrega de documentação governamental com o nome social da jogadora.

Porém, estas não foram as únicas comprovações requisitadas pelo campeonato. O Versus teve acesso a prints do canal do Discord oficial do torneio, em que uma operadora de liga pede para que uma jogadora transexual entregue um laudo médico, no que pode ser entendido como verificação de tratamento hormonal. Este requisito foi abandonado com a mudança de regulamento.

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Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Devido a mudança súbita de regulamento, Hetza foi desclassificada da competição pouco antes do início da classificatória. Ela conta como isto não apenas a impediu de jogar o torneio, como todo o restante de seu time também foi prejudicado.

"Cerca de 20 ou 30 minutos antes do início das partidas, quando fomos olhar a lista [de jogadoras aprovadas] novamente, haviam tirado o meu nome, sem avisar nada. Corremos atrás do suporte e trataram a situação com certo descaso. Eu não queria prejudicar as meninas do time, então procurei uma completer que ainda estava entre as aprovadas. Porém, quando colocamos ela no Battlefy, ela não apareceu no main roster da plataforma, apesar de estar registrada na equipe. Então, desqualificaram meu time."

A jogadora explica que, por resistência de sua família, que não aceita sua transição, ela não pode emitir documentos com seu nome social. Sem a documentação, a jogadora não pode disputar o GirlGamer Festival.

"Como todo mundo sabe, muitas pessoas trans vivem o mesmo tipo de situação que eu, com problemas familiares. Meu pai não aceita de jeito nenhum que eu tenha nada relacionado a minha identidade de gênero, então manter documentos é uma coisa muito mais complexa e difícil do que parece."

"(...) Para mim isso (regra do cromossomo) foi muito decepcionante e destruidor, imagino que para todas nós. Algumas garotas, eu não estava inclusa nesse grupo, foram conversar e discutir isso com a organização da BBL e conseguiram mudar a regra, para ser um pouco menos exclusiva. Mas já nesse momento eu desisti completamente de jogar o GirlGamer Festival, porque aquilo já estava me fazendo mal [...] simplesmente não importava o que eu tentava fazer, não adiantava."

Olga Rodrigues, jogadora de CS:GO da Black Dragons, disputou o torneio e revelou que não teve problemas no processo de inscrição por possuir documentação em seu nome social. Além disso, a pro player afirmou que a organização não pediu para que entregasse um laudo médico.

"Foi tudo bem. Só estranhei quando fui ler o livro de regras e vi um papo muito retrógrado sobre gênero, que falava sobre cromossomos. Fui verificar se eu teria algum impedimento e me explicaram que [esta norma] tinha a ver com as regras internacionais e na hora já pensei que mulheres trans deviam não estar conseguindo se inscrever por não possuir essa documentação".

Sobre o assunto, a BBL confirmou que solicitou documentação médica para jogadoras transexuais, mas abandonou o requisito com a retirada da norma do Comitê Olímpico:


Todos os campeonatos da BBL são mistos, exceto os torneios femininos. Para a inscrição nos campeonatos femininos, foi solicitado a comprovação de identidade do gênero feminino já que homens não são permitidos nesses torneios. No caso de inscrições de mulheres transsexuais, a BBL iniciou o regulamento solicitando documentos médicos comprobatórios de 12 meses de tratamento hormonal, regra comumente aplicada a atletas profissionais. Com a retirada dessa norma do Comitê Olímpico, a BBL também retirou a norma do regulamento feminino. Para os torneios criados pela BBL, foi possível a inscrição de jogadoras transsexuais com diversos tipos de documentos com foto e nome social, como carteirinha médica e universitária, por exemplo.


A BBL também afirmou que procura criar um ambiente seguro para o desenvolvimento do cenário por meio de seus campeonatos femininos e disse procurar as melhores alternativas para que as participantes se sintam seguras.


Os torneios femininos são uma forma que a BBL encontrou de criar um ambiente seguro para o desenvolvimento de mulheres no e-sports. Por isso, é sempre importante buscar alternativas que deixem as jogadoras mais seguras de participarem das competições. Não se pode ignorar também a possibilidade de fraudes dentro da competição, fazendo com que medidas cautelares tenham que ser aplicadas sempre e essa é mais uma forma encontrada de legitimar todas as participantes do campeonato.


Outras reclamações das jogadoras são em relação a organização da etapa do GirlGamer Festival, que mostrou atitudes intimidadoras para com as participantes. No Discord, aplicativo usado para comunicação com os times, a moderação reprimiu críticas. Sobre as reclamações da desclassificação de Hetza, uma delas respondeu dizendo: "é muito fácil não correr atrás de participar e depois ficar causando em chat".

Além disso, o Versus teve acesso ao atual regulamento de LoL e verificou uma regra que determina que as jogadoras que participam do torneio estão impedidas de difamá-lo nas redes sociais, o que pode levar "a punição ou até mesmo a desclassificação da equipe dependendo da situação".


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Para as jogadoras da Athena's e-Sports, a moderação usou de intimidação na comunicação com as participantes. "É o sonho de todo mundo que joga competitivamente disputar um campeonato organizado, com etapa presencial e sonhar com um mundial. Sabendo disso, a organização sentiu que poderia agir de forma intimidadora para, em vez de conquistar o respeito, exigi-lo com base na força. A linguagem utilizada pelas administradoras não era de compreensão, inclusão e amizade. Pelo contrário, muitas vezes falavam de forma intimidadora, sarcástica e se baseando em ameaças".

Explicando os motivos que as levaram a deixar a disputa, a equipe apontou como fator os horários das partidas que, na segunda etapa, aconteceram durante a semana às 18h, ao fim do horário comercial, impedindo a participação de grande parte dos times.

Além dos entraves do processo de inscrição, outro fator limitador para jogadoras transexuais no GirlGamer Festival é o local da final mundial. A decisão acontecerá em Dubai, nos Emirados Árabes, país conhecido por possuir políticas rígidas e por ser um dos locais mais perigosos para transexuais.

Para Hetza, saber que poderia jogar em Dubai a fez repensar sua participação. "Não sei como fizeram a escolha de local, mas penso que, por questões culturais da região, não é o melhor país para o campeonato, visto que o objetivo dele é a inclusão e participação das mulheres nos esports. Um país com cultura e costumes machistas e misóginos não é a escolha ideal. Cheguei a ouvir de outras meninas que elas estavam sendo 'aconselhadas' a não deixar o hotel lá sem a presença de um homem".

Olga também questiona a escolha do país: "Joguei esse campeonato sabendo que se passasse poderia enfrentar problemas em Dubai, que mesmo com a documentação isso poderia acontecer. Isso claro, falo sobre a organização mundial e não aqui do Brasil. Se você procurar por 'trans em Dubai', vão aparecer umas três matérias de casos diferentes de trans sem documentação retificada que ficaram presas ou até sofreram processos".

A BBL explicou que o fato da final do circuito GirlGamer ser em Dubai é o fator que determinou a necessidade de comprovação de documentos governamentais para as participantes transexuais. A organização também mostrou preocupação em relação ao bem estar das jogadoras nos Emirados Árabes.


O GirlGamer é um campeonato internacional. A edição que ocorre agora em São Paulo selecionará as melhores equipes da América Latina e garantirá uma vaga para Dubai, que é uma região que não assegura os direitos de grupos minoritários. A organização internacional do GirlGamer estipulou a necessidade de documentos oficiais do governo (com foto) para mulheres transsexuais que forem participar da competição. O site do Itamaraty detalha melhor os cuidados necessários em viagens para região dos Emirados Árabes. Toda jogadora transsexual que compete no GirlGamer tem os documentos oficiais do governo com o nome social ou apresentaram o processo de retirada da documentação oficial com o nome social à administração do evento. A BBL salienta sua preocupação com relação às jogadoras transsexuais devido às possíveis dificuldades que poderão ter ao viajar para a região dos Emirados Árabes.”


A primeira etapa presencial da GirlGamer Esports Festival acontece em São Paulo, na Arena Bad Boy Leeroy (BBL), entre 5 e 6 de outubro. Para mais sobre o torneio, visite o site oficial do GirlGamer Esports Festival.



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