Dota

Gui “pds” Pullin conta: Como foi levar a narração e os comentários brasileiros ao The International?

Conexão Brasil/Seattle
@biaacoutinhoo
Beatriz Coutinho
escreve para o Versus.

A história do narrador Guilherme “pds” Pullin com o Dota é bem parecida com a da maior parte dos jogadores e fãs mais antigos do MOBA. Começou em 2008 com as campanhas e mapas diferentes do World of Warcraft. “Eu comecei a jogar só nesses mapas, até que finalmente me apresentaram ao Dota. Ainda demorei um pouco pra começar, mas depois que comecei não consegui parar mais, foi bem na época em que a ult do Riki era igual a do Doctor e por aí vai”, conta “pds” rindo ao lembrar de como o jogo funcionava antes.

Jogando diariamente, ele desanimou um pouco do game quando não conseguiu sua chave de acesso para o Dota 2, “mas quando ela chegou eu voltei a jogar e foi quando comecei a me interessar de verdade pelo cenário competitivo. Não acompanhei o The International 1 porque não estava jogando tanto naquela época, mas o 2 eu vi inteiro e no terceiro, em 2013, já comecei a narrar e foi quando eu percebi que realmente existia espaço para isso.”

Depois de começar a acompanhar os torneios, surgiu uma dúvida: por quê não haviam narrações em português? Após vasculhar a internet atrás disso, o resultado foi o esperado: nada de jogos na nossa língua mãe. “Aí comecei a narrar partidas com meus amigos, compramos tickets dentro do Dota e narrávamos para nós mesmos. Logo em seguida eu descobri a ArenaGamingTV.” Animado com a possibilidade de fazer aquilo que realmente gostava, Gui deu sua cara a tapa e se candidatou para uma vaga que nem existia, a de narrador, quando na verdade a empresa procurava alguém que pudesse ajudar com mídias sociais e bastidores.

Após ser chamado, testado e aprovado a narração começou a virar realidade e a oportunidade de trabalhar com outros profissionais, como Aedrons e Skeat -- que atualmente é comentarista do CBLoL e apresentador do League News -- também. Depois da ArenaGamingTV, vieram convites para trabalhar com a ESL Brasil, até que ele e alguns amigos criaram a NoMadTV. “A partir desse momento a gente podia fazer o que queríamos, porque nós fazíamos parte da comunidade, éramos jogadores também, e nada era melhor do que a gente poder fazer o que a comunidade queria.”

Depois disso, a carreira de “pds” deslanchou. “A gente já estava se preparando para narrar o TI 4 daqui do Brasil mesmo. Então na metade de julho de 2014, estava acontecendo a Copa do Mundo, e eu e a minha esposa estávamos indo para a casa de um amigo meu ver um dos jogos, quando meu amigo Bruno mandou uma mensagem pedindo pra eu ficar de olho no meu Skype. De repente o Icefrog me mandou uma mensagem e eu pensei ‘Não é possível!’”

Foi aí então que um dos desenvolvedores do MOBA convidou o brasileiro e seu colega Skeat para comentar o The International 4 em português. “Depois que eu aceitei, ele só me falou ‘Beleza, vamos entrar com contato com você para acertar tudo’, super casual e normal, enquanto eu fiquei boquiaberto e contei pra todo mundo. Os caras terminaram de ver o jogo, mas minha cabeça já estava em outro lugar. Esse foi um dos momentos mais fantásticos da minha carreira, porque eu não estava esperando nada.”

© Reprodução: Facebook
© Reprodução: Facebook

Com as portas para Seattle abertas, desde 2014 “pds” e outros narradores sempre são convidados pela Valve para participar do maior campeonato de eSports do mundo. “Pra mim o melhor The International foi o de 2016, porque foi uma experiência pessoal muito diferente. Em 2014 e 2015 eu fui com o Skeat e nós narramos tudo sozinhos, o que foi ótimo para nossa carreira, mas muito cansativo. Era muito puxado, ficávamos 14 horas narrando direto sem tempo para levantar para comer ou ir ao banheiro.” Em 2016 ele foi para o TI como narrador, ao lado de Xaolin, e os dois trabalharam o tempo todo conectados com uma equipe de colegas brasileiros.

2016 também foi decisivo para marcar o fim de um ciclo em sua vida. Com o crescimento e os resultados positivos de seu trabalho, “pds” teve a certeza de que conseguiria viver só com o Dota 2, e deixou para trás então a vida que levava lado a lado com o game, a de veterinário. “Em 2010 me formei em medicina veterinária e comecei a trabalhar em diversas clínicas, depois me especializei em cardiologia de pequenos animais e só ia trabalhar nesse tipo de caso. Era uma agenda bem flexível, então eu consegui conciliar isso durante muitos anos.”

Assim como jogadores profissionais, “pds” também teve problemas em convencer sua família de que trabalhar com games é algo possível e rentável. “Eles não sabiam que eu estava realmente narrando, fazendo um papel de Galvão Bueno” conta dando risada. “No começo não tive apoio. Eu ainda morava na casa dos meus pais, então eu me trancava no quarto e falava ‘Ninguém entra agora porque eu estou narrando!’” Depois do convite para viajar a trabalho a opinião dos pais começou a mudar. “Antes eles falavam ‘Meu filho é veterinário’, mas agora já dizem ‘Ah, o meu filho é narrador de eSports’ e isso foi um marco pra mim, quando minha mãe falou pela primeira vez que eu era narrador, aí sim eu fiquei tranquilo.”

The International 2017 - © Reprodução
The International 2017 - © Reprodução

Quem sempre esteve lado a lado do narrador nessa aventura que é escolher uma profissão fora dos padrões, é sua esposa Helena Ferrari. Os dois se conheceram em 2007 em uma ONG, da qual ambos participavam, e começaram a namorar a distância, "ela em Campinas e eu em São José dos Campos." Gui e Helena se casaram em 2014 e o Dota sempre fez parte da vida dos dois, até mesmo quando "pds" viajou para o The International 4 um mês antes do grande dia de dizer "Sim!" Ainda assim, ele conta que "desde 2013 ela sempre me apoiou e acreditou em mim, sem o apoio dela, eu jamais estaria aqui hoje."

Acompanhando o cenário brasileiro desde o começo, Gui acredita que a crise atual e o preconceito em relação aos eSports que ainda existe em nosso país são os principais motivos para o cenário de Dota 2 ainda não ter atingido todo o seu potencial, mas que com os recentes resultados da SG eSports e o espaço que a Valve abriu para a América do Sul isso deve mudar para melhor.

Por fim, um dos maiores narradores de Dota 2 do Brasil deixa uma dica para quem tem vontade de seguir carreira neste outro ramo dos eSports: “Comece! Tem muita informação na internet, é super fácil criar um canal no Youtube ou na Twitch, se você realmente quiser, a informação está lá para te ajudar! ‘Ai mas eu não tenho PC, não tenho microfone’, não importa! Quando eu comecei eu também não tinha nada disso, gravava dentro do banheiro, dava eco e o áudio ficava horrível. Mas é isso, o mercado ainda precisa muito de profissionais qualificados, O espaço é pouco, porque assim como para os jogadores o que vale é o profissionalismo, mas ele existe!”


Bia Coutinho é redatora no IGN Brasil. Siga-a no Twitter.

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