CS:GO

Crônica: A Corujona e o bando

Conheça a Corujona de CS:GO pelo olhar de nossa jornalista
@helenavnogueira
Helena Nogueira
escreve para o Versus.
Foto: Felipe Guerra/ Reprodução
Foto: Felipe Guerra/ Reprodução

26 de maio de 2018.

Sou jornalista e estou responsável por cobrir a segunda edição do Corujona, um evento que reúne mulheres para jogar Counter Strike: Global Offensive durante toda a madrugada na MAX Arena, em São Paulo.

Chego às 21:30h, alguns minutos depois do horário combinado.Famílias, crianças e casais se aglomeram nas mesas da cafeteria, mas não vejo o grupo de jogadoras que procuro. Me preparo para entrar na arena, que já trazia o burburinho de conversas animadas.

Conheci o evento através do Facebook e esta é a minha primeira vez na Corujona, que não permite a entrada de homens e tem como objetivo incentivar a presença de mulheres no jogo de tiro em primeira pessoa.

A noite é fria, mas não tão congelante como outras. Frio pode ser ausência, dificuldade, algo perdido. É tudo aquilo que te dá desconforto e faz subir um arrepio na espinha. Aquele sentimento de não pertencer a algum lugar e se sentir uma estranha no ninho.

Definitivamente não é o que eu acredito que vai acontecer nesta visita.

Vou para a entrada frontal da Arena, onde seis mulheres conversam e riem em voz alta. Uma delas, sentada em um banco, eu reconheço: é Serena "seps" Capó, fundadora e organizadora do Corujona de CS:GO. Ela conversa com Flávia “Nykol” Amato, designer e também organizadora do evento, e mais outras quatro jogadoras. Elas conversam animadas, dando altas gargalhadas, como se conhecessem há anos.

“Deve atrasar um pouco", me conta Seps. "Tem mais meninas para chegar ainda.”

Pode até fazer 15º C lá fora, mas um sentimento me aquece em meio àquelas jogadoras. Afinal, cresci sabendo que devo estar alerta à noite em São Paulo, mas naquele ambiente me sinto despreocupada quanto ao que dizer e como agir - coisa que geralmente não sinto em ambientes públicos com outras pessoas que não conheço.

Algo espantou o frio.

Foto: Elaina Takahashi/ Reprodução
Foto: Elaina Takahashi/ Reprodução

Em meio aos computadores e cadeiras gamers, uma lembrança veio em minha mente.

Eu tinha lá os meus dez anos. Um dos meus amigos decidiu fazer sua festa de aniversário em uma lan house. Ele me convidou porque sabia que eu gostava de videogames e me incluiu na lista de convidados. Fiquei feliz e assenti, aceitando o convite.

“Só vai ter meninos lá, você não vai sozinha”, respondeu minha mãe quando contei da festa. “Seu irmão vai com você.”

Na época, não questionei a decisão - ela fazia sentido, afinal éramos todos amigos em comum. Era uma lan house de uma avenida famosa de minha cidade natal. Sempre ouvi os garotos falando a respeito, mas nunca tinha ido em uma. Na minha imaginação, eu visualizava um lugar obscuro e, de certa forma, perigoso.

Abri a porta e encontrei justamente escuridão e frio. As luzes dos computadores iluminavam os rostos familiares de alguns colegas de classe, que já estavam iniciando partidas do famoso Counter-Strike 1.6.

Senti muita alegria naquela noite, dei muita risada e me senti inclusa. Mas também recordo o desconforto, certa vergonha do meu desempenho em relação aos meus amigos. Achava que eu era ruim.

Joguei pouco - um ou dois rounds.

Foto: Elaina Takahashi/Reprodução
Foto: Elaina Takahashi/Reprodução

De volta à MAX Arena, ouço um grito animado: “Tá na hora de definir as cabeças de chave!”, exclama Seps.

É meia-noite e estou diante de um grupo de aproximadamente 25 mulheres, perto da área de lan house, em que seis fileiras de computadores estão à disposição das jogadoras. Serena organizou todas em círculo, de forma que, uma a uma, elas falassem seus nomes, cidades e há quanto tempo jogam Counter-Strike.

De 13 a 28 anos, o evento alcançou mulheres de diferentes idades, situações financeiras e regiões. Uma quantia em dinheiro foi arrecadada por meio de streams beneficentes de jogadoras como Camila "Cammy" Natale, Amanda "AMD" Abreu, Amanda "Dinha" Estevam e a comentarista Renata "Reeeh" Bagnato na Twitch - o valor angariado pagou passagens e hospedagens para que jogadoras sem condições pudessem comparecer ao evento.

Mulheres que se reconheciam apenas por voz estão se conhecendo pessoalmente.

Vejo jogadoras se abraçando e pulando de alegria depois de saber que caíram no mesmo grupo. Elas estavam felizes porque vão competir juntas, lado a lado, terroristas versus contra terroristas.

Não há receio quanto à performance no jogo. O motivo? Ninguém está ali para julgá-las, apenas para jogar. O conforto e união estavam em alta no ambiente de competitividade entre todas aquelas jogadoras.

Quando pergunto o que elas diriam a jogadoras de CS:GO de todo o país, uma delas responde: "Não desista, estamos aqui".

Foto: Felipe Guerra/ Reprodução
Foto: Felipe Guerra/ Reprodução

O campeonato teve início às 3 horas da manhã e término por volta das 7 horas - a disposição das jogadoras até altas horas é chocante. Deixei a Arena mais cedo, levando comigo algumas boas surpresas: pertencimento, realização e novas amizades.

Também voltei para casa carregando um pacote de lembrancinhas, entregue a todas as participantes do evento. Abrindo a sacolinha, vejo um pedaço de papel enrolado.

Desenrolo o bilhete e leio a seguinte mensagem: "Coruja é a ave soberana da noite. Para muitos povos a coruja significa mistério, inteligência, sabedoria e conhecimento. Ela tem a capacidade de enxergar através da escuridão, conseguindo ver o que os outros não vêem. Que você tenha inteligência hoje para seus clutchs, sabedoria para lidar com seu time e conhecimento das melhores jogadas!"

Você não está sozinha. Corujas também podem voar em bando.



Helena Nogueira é repórter no Versus. Siga-a no Twitter.

Tags Relacionadas
CS:GOComunidade
Mais notícias
CS:GO: Latto e Nython xingam oponentes de "macacas", "raça inferior", e são advertidos
CS:GO

CS:GO: Latto e Nython xingam oponentes de "macacas", "raça inferior", e são advertidos

Jogadores seguem jogando pela equipe normalmente
Matheus Oliveira
CS:GO: Com MIBR e Sharks, grupos e calendário da ECS Season 8 são revelados
CS:GO

CS:GO: Com MIBR e Sharks, grupos e calendário da ECS Season 8 são revelados

Brasileiros ficaram no mesmo grupo
Matheus Oliveira
CS:GO: Brutt é anunciado pela Imperial
CS:GO

CS:GO: Brutt é anunciado pela Imperial

Jogador deixou a Team Reapers recentemente
Matheus Oliveira