BootKamp Gaming é o clube que pode revolucionar o CS:GO brasileiro

Após ser anunciada como a primeira técnica transsexual de Counter Strike: Global Offensive (CS:GO) brasileiro, Olga Rodrigues pode se tornar a primeira jogadora trans do cenário feminino de CS:GO. Até então coach da BootKamp Gaming, Olga apareceu no site da Gamers Club ao lado de pro players como Amanda “AMD” Abreu, não desempenhando sua função como coach.

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Nos últimos dias, o Versus apurou com exclusividade a informação de que a BK pode inscrever a primeira transsexual do cenário na competição da liga feminina da Games Academy. A reportagem tentou falar com o clube sobre a participação de Olga na line-up e não obteve resposta. 

O rumor foi levantado por conta de Olga não estar desempenhando a função de treinadora na página da BK dentro da Gamers Club. Segundo um dos sócios da GC, nenhuma decisão foi tomada a respeito do assunto.

“Trabalhamos para que a Gamers Club seja um ambiente inclusivo e de fomento à comunidade, mas ainda não temos uma definição para participação [de Olga] da Liga Feminina”, afirma Yuri Fly.

No eSport brasileiro, a separação de homens e mulheres é algo muito recorrente no cenário. Caso Olga realmente torne-se jogadora e atue pela Liga Feminina, será a primeira mulher trans a desempenhar a função não apenas no CS:GO, mas em todo competitivo no país.

Porém, será que existem diferenças de gênero no esporte eletrônico? 

A opinião de especialistas

Procurando entender sobre o caso, o Versus conversou com Alessandra Dutra (psicóloga da Red Canids Corinthians), Rafael Pereira (psicólogo e criador do Preparando Campeões da CNB eSports Club) e Daniela Vendramini (sócia da Machado Advogados, escritório especializado em eSports).

Quando se fala sobre transexualidade em esportes tradicionais, o motivo maior para impedir o indivíduo a competir é a questão física. Já no eSport, as habilidades necessárias para ser um pro player são voltadas às funções mecânicas dentro de jogo.

Para a psicóloga Alessandra, a divisão de sexo dentro das competições on-line não deveria existir, por mais que algumas diferenças entre homens e mulheres possam se fazer presentes: “Acredito que não deveria ter [separação de gênero]. Um dia, teremos times formados por gêneros distintos que, somados, serão capazes de formar super times competentes. Mas há sim peculiaridades, por exemplo, até agora, a TPM (Tensão Pré Menstrual) manifestada nas mulheres alteram sim o desempenho… Podendo afetar positivamente ou negativamente nas partidas.”

Já para o psicólogo Rafael, a questão de divisão é um claro resultado dos esportes eletrônicos se espelharem nos jogos tradicionais: “O eSport deveria ser uma categoria diferente dos esportes por conta dele ser algo próprio, tendo suas próprias regras e deixando de se basear totalmente nos esportes tradicionais. A separação de gênero, que no esporte é algo discutível, por exemplo,  não se aplica ao eSport.”

Completando a colocação do ex-psicólogo da CNB, a advogada Daniela Vendramini afirma que, no Brasil, proibir Olga de participar de qualquer campeonato seria considerado “uma violação à dignidade da pessoa humana” não apenas pela Constituição Federal, como também pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). 

Ainda de acordo com Daniela, o próprio Comitê Olímpico Internacional (COI) permitiu a participação de transgêneros em Jogos Olímpicos: “Na época, a medida era restrita aos que tivessem se submetido à operação de transgenitalismo, com a finalidade de evitar a vantagem física em relação a outros competidores.”

Porém, com o passar dos anos, as diretrizes foram alteradas. A advogada explica: “No início de 2016, o COI anunciou que seria permitido para os homens trans a participação em competições oficiais da entidade, sem restrição e, às mulheres trans mediante o preenchimento de alguns requisitos, como é o caso do controle dos níveis de testosterona no organismo.”

Assim, a cirurgia de mudança de sexo tornou-se um requisito desnecessário para a participação de atletas trans, fazendo com que as resoluções do COI sejam levadas apenas como recomendações pelas entidades desportivas. 

Além disso, a situação não se trata apenas de Olga, e sim das mulheres no geral.

“A Olga tem tanto direito de jogar no cenário competitivo de CS:GO quanto qualquer outra mulher. A identidade sexual [dela] em nada compromete ou dá vantagens em seu desempenho no jogo ou de sua equipe”, finaliza Daniela.

 E o que faz uma pessoa ser transexual?  

Psicologicamente falando, a transexualidade acontece quando uma pessoa não se sente bem com o corpo que possui, se identificando com outro gênero. De acordo com o psicólogo Rafael, existem diversas formas de definir o que torna alguém trans, porém, a definição mais simples tem ligação com a mudança de gênero.

[Transsexualidade] É basicamente quando o corpo físico não está correspondendo ao gênero da pessoa e, por conta disso, a redesignação pode se tornar necessária pra que haja uma maior identificação do corpo com o gênero”, explica. 

Para Alessandra, o termo é um conflito psicológico entre o sexo que a pessoa nasceu e o sexo que ela se reconhece, sendo algo muito maior do que apenas trocar de gênero. Muito antes da transição ocorrer, a pessoa padece psicologicamente em vários aspectos. 

“A pessoa sofre muito, pois se dedica intensamente para encontrar uma harmonia física e emocional desejada. [...] A angústia está em encontrar uma harmonia social, física e psicológica que a satisfaça e que tenha uma representatividade social”, diz a psicóloga.

“Acredito de verdade que o maior inimigo para identidade de gênero e gênero no esporte é o preconceito”, completa Alessandra. “Precisamos pensar que independentemente dos gêneros, somos seres humanos e que a democratização de gênero só faz com que avancemos muito mais em qualquer coisa que possamos nos dedicar.”

Qualquer novidade a respeito da contratação no time ou posicionamento da organização de campeonatos, você pode acompanhar no Versus.


Siouxsie Rigueiras é jornalista do Versus e anseia por equipes mistas no esporte eletrônico, siga-a no Twitter

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