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"Aquilo não foi uma desculpa", diz manifestante pró-Hong Kong sobre abertura da BlizzCon 2019

Participantes do movimento relatam suas visões da situação
@luccabucks
Matheus de Lucca
escreve para o Versus.
Foto: Barbara Gutierrez
Foto: Barbara Gutierrez

Manifestantes pró-Hong Kong compareceram em peso à BlizzCon 2019, erguendo cartazes e distribuindo camisetas estampadas com Mei, de Overwatch, que se tornou um dos símbolos da luta pela liberdade e direitos humanos na China. Em entrevista ao Versus, participantes do movimento relataram suas visões da situação e se posicionaram frente ao discurso de retratação feito por J. Allen Brack, presidente da Blizzard, durante a abertura do evento - que não foi considerado uma desculpa genuína.

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A cerimônia de abertura da BlizzCon foi comandada por Brack, que iniciou com um discurso em referência aos acontecimentos da Hearthstone Grandmasters, quando o jogador Blitzchung foi banido de torneios oficiais e teve sua premiação revogada, após ter se manifestado ao vivo em favor dos protestos de Hong Kong, e dois narradores da competição em questão foram demitidos pela Blizzard:

Tomamos decisões precipitadas e, para piorar, demoramos muito para nos remediar. Quando penso no que me deixa mais infeliz com tudo, são duas coisas: não correspondemos aos padrões que estabelecemos para nós mesmos e falhamos em nosso propósito. Por isso, peço desculpas e aceito responsabilidade.


Para contexto: o movimento que pede a independência de Hong Kong da China é uma pauta recorrente e há manifestações desde março de 2019. As discussões sobre o tema voltaram à tona no último mês de junho, quando a chefe do Executivo Carrie Lam apresentou um projeto de lei que autoriza a justiça local a deportar cidadãos condenados a países com os quais Hong Kong não tem acordo de extradição - incluindo Macau, Taiwan e China continental.

Os conflitos se intensificaram em outubro, quando Lam invocou uma lei de 1922 que proíbe o uso de máscaras em manifestações. Desde então, os cidadãos estão cobrindo seus rostos em negação à decisão, ação simbólica para o movimento, e continuam com protestos em Hong Kong.

Depois de inúmeras retaliações por parte da comunidade de jogadores sobre a punição de Blitzchung, a Blizzard chegou a repensar a a suspensão e diminuiu o tempo de banimento, além de conceder a ele o dinheiro da premiação referente à segunda temporada da Grandmasters. Contudo, a proibição de manifestações políticas durante transmissões oficiais da empresa permanece.

Mas as manifestações continuam, uma vez que os membros do movimento ainda julgam que a empresa precisa tomar mais ações para remediar o que foi feito e a situação política de Hong Kong permanece instável. Grupos como o coletivo Hong Kong Forum, Freedom Hong Kong, Fight for the Future e membros do subreddit Protest BlizzCon se reuniram para protestar em frente à entrada do pavilhão da BlizzCon.

Em entrevista ao Versus, uma manifestante que preferiu manter o anonimato disse: "Aquilo não foi um pedido de desculpas, não sei porque as pessoas consideram o que foi dito como uma retratação". Outro membro do grupo que também quis continuar anônimo, compartilha o sentimento: "Um pedido de desculpas em uma situação como esta não é feito só com palavras, mas com ações. Não pode ser só da boca para fora".

Segundo relatos dos membros do movimento, a Blizzard não impediu que protestos fossem realizados na área externa da BlizzCon, mas alguns contratempos aconteceram no primeiro dia do evento.

"Eles disseram que estávamos bloqueando o caminho para o check-in, mas as pessoas na fila de entrada estavam paradas porque estavam tirando fotos e gravando vídeos nossos", conta a primeira manifestante citada nesta matéria. "A Blizzard mandou os seguranças nos tirarem de onde estávamos e pediu que os visitantes não se aglomerassem para nos fotografar. Depois de tudo, vieram nos trazer água. É só isso que eles fazem, meias desculpas".

No segundo dia de BlizzCon, não houve protesto marcado, mas sim uma distribuição de camisetas. A manifestante conta que ela e outros membros do grupo nos EUA montam kits semanais com alimentos e suprimentos para enviar a centros de apoio em Hong Kong.

"Acho que nós e vários cidadãos de outras regiões com problemas políticos e sociais só querem justiça. Todos nós só queremos justiça", desabafou.

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Foto: Barbara Gutierrez
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"Só espero que a Blizzard se lembre dos ideais propostos em seus próprios games", diz Kieran Tallinger, norte-americano de 26 anos que se juntou ao movimento pela liberdade de Hong Kong. "Acho incrível que a Mei tenha se tornado um símbolo dos protestos, mas acho que Overwatch como um todo pode ser representativo dessa luta, porque o jogo trata da luta por direitos".

O que os cartazes de muitos manifestantes mostra são dizeres de "pessoas antes de dinheiro", porque, de acordo com os participantes, "muitas empresas se posicionaram ao lado da China apenas pelo lucro" - a gigante chinesa Tencent possui 4.9% de ações da Activision Blizzard.

Para Tallinger, "não podemos nos render a certas políticas por conta de pressões econômicas. Se isso continuar, estamos cada vez mais no caminho para o totalitarismo. Precisamos apoiar Hong Kong e outros países e lugares que passam por revoluções como essa".

Ele conta que decidiu participar dos protestos por não conseguir continuar em silêncio frente aos acontecimentos políticos que viu acontecer em Hong Kong. "Sempre tive minhas opiniões, mas até agora nunca tinha sido muito vocal com elas. Não posso ignorar o fato de que eu tenho direitos de liberdade e que eu posso oferecer apoio de alguma maneira, porque eu tenho o privilégio de ser não alvo de gás lacrimogênio e de não ser ameaçado. Tenho direitos e posso usá-los para ajudar outros".

Tallinger menciona que vê muitas pessoas de diferentes opiniões aderindo ao movimento e faz uma relação com a situação política dos EUA: "Estamos em um contexto super intenso em nosso próprio país então fico orgulhoso que gente com ideias e visões completamente opostas se juntem aqui para lutar por algo que é fundamentalmente humano, que é a liberdade. Honestamente essa união me dá um pouco de esperança pelo mundo".

"No fim das contas, tudo o que queremos é que Hong Kong tenha os mesmos direitos que nós", finaliza.

Kieran Tallinger à esquerda | Foto: Barbara Gutierrez
Kieran Tallinger à esquerda | Foto: Barbara Gutierrez

Barbara Gutierrez é editora-chefe e Matheus de Lucca é editor assistente do Versus. Siga-os no Twitter em @bahgutierrez e @luccabucks.

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