League of Legends

Adriana Piller Noronha: Muito além do que "apenas a mãe do YoDa"

Mulher, empresária, chefe, educadora, consultora... E muito mais
Adriana Piller Noronha, sócia, empresária e mãe do pro player Felipe "Yoda" Noronha | Imagem: Beatriz Coutinho
Adriana Piller Noronha, sócia, empresária e mãe do pro player Felipe "Yoda" Noronha | Imagem: Beatriz Coutinho

Muito prazer. Quem sou eu, você pergunta?

Muitos me conhecem só como a mãe de Felipe “Yoda” Noronha. Para alguns, sou tratada como empresária, a chefe. Há até aqueles que simplesmente me chama de “a chata”... Mas você pode simplesmente me chamar de Adriana. Adriana Piller Noronha.

Veja bem, não encaro nenhum desafio que surge na minha vida - passei muito tempo sem perceber que, na verdade, eu mesma corro atrás deles. Somente um desafio me foi imposto em 46 anos de vida e graças a ele, eu soube que posso fazer acontecer qualquer sonho, plano e objetivo.

Mas se eu sou assim hoje, não é à toa. Sou filha única e fui criada pelo meu pai da forma mais rígida possível. Comecei a dançar ballet aos quatro anos e aos domingos, cumpria uma rotina praticamente religiosa ao lado dele: pela manhã, praticávamos basquete e corrida no Clube de Regatas Tietê. Depois, a gente almoçava com a minha mãe e rapidinho corríamos até o estádio do Morumbi para ver o São Paulo jogar... Sabe como é, ele era um tricolor roxo!

Imagem: Beatriz Coutinho
Imagem: Beatriz Coutinho


Dez anos depois, o ballet e os esportes não eram mais só lazer... Eles faziam parte de quem eu era. Até que o meu mundo ruiu - ou quase isso, já que eu dei um jeito de remendá-lo.

Aos 14, meus pais se separaram. Embora eu fosse muito ligada ao meu pai, fiquei ao lado de minha mãe, que desenvolveu um quadro de depressão severa. Foi aí que eu entendi que dali em diante, seria eu por mim e só. É verdade que meus pais não me deixaram faltar nada, mas eu não podia mais depender só deles. 

Com aquela idade, eu já era uma bailarina profissional, então decidi ser professora de dança e com essa responsabilidade eu ajudava a pagar as contas de casa. Mais tarde, me formei em educação física e fui dar aulas de ginástica em academias. No que pareceu um piscar de olhos - que na verdade precisou de muito trabalho - virei gerente.

Realizei diversos projetos, fui consultora, dei aulas relacionadas aos esportes em cursos de pós-graduação, fui chamada para gerenciar o departamento esportivo da Associação dos Oficias da Polícia Militar do Estado de São Paulo (AOPM) e lá fiz virar realidade diversos projetos educacionais, implementei uma escola de esportes e a de modalidades, cuidava da natação, tênis, ping pong, sinuca e da Escola de Educação Física da Polícia Militar. Fiquei lá por 11 anos.

Já no fim deste período, lancei um livro com exercícios de estudo para concursos públicos voltados para a área da educação física e da saúde e encerrei meu ciclo na Polícia Militar. Após passar por diversos problemas, percebi que meu tempo ali havia chegado ao fim. Não adianta insistir: tudo tem um fim para que um novo começo traga oportunidades.

Adriana ao lado do filho e sócio YoDa | Imagem: Reprodução
Adriana ao lado do filho e sócio YoDa | Imagem: Reprodução


Isso tudo aconteceu até maio de 2013. Em agosto daquele ano, Felipe estava pronto para prestar a prova da Academia de Polícia Militar do Barro Branco. Dois anos antes, ele havia caído de bicicleta e acabou tendo diversas complicações no joelho, precisando até mesmo passar por cirurgias.

Entre idas e vindas na fisioterapia, eu estava lá para ele como mãe. O que eu não sabia é que durante o tempo que ele precisou ficar de molho por conta do joelho machucado, sua habilidade no League of Legends crescia a cada dia que passava, já que ele ficava muito mais tempo jogando.

Eu e meu filho sempre fomos muito próximos. Ele costumava me contar tudo. Na AOPM, onde Felipe praticava natação, ele sabia que eu estava lá o dia inteiro se ele precisasse de mim, mas ele entendia que aquele local era o meu trabalho.

Quando eu estava em uma reunião e ele precisava falar comigo, ele esperava eu terminar para aí sim entrar na minha sala. Felipe sabia separar quem era a mãe dele da Adriana Piller.

Naquela época, ele era tratado como o filho da Piller. Hoje, nós damos risada e ele diz que o jogo virou, já que muita gente me trata como “mãe do YoDa”. Mas nem tudo foram flores desde o início.

Imagem: Beatriz Coutinho
Imagem: Beatriz Coutinho


Me lembro muito bem do dia em que tive contato com o cenário competitivo de LoL pela primeira vez. Um dia, Felipe me avisou - que logo após fazer a prova do Barro Branco! - ele iria disputar um campeonato e que eu e o pai dele precisávamos ver para entender o que ele realmente queria fazer. Fomos. Fiquei maravilhada com aquele mundo - e com o tanto de gente que gritava o nome, ou melhor, o nick do meu filho. Ali eu comecei a entender quem era o YoDa, mas achava que não passaria de uma fase.

Uma semana depois, nós estávamos em família, comendo pizza em casa, quando ele disse:

- Então, saiu o resultado da prova do Barro Branco e eu passei, mas não vou.

- Como você não vai?

- Não vou. Eu vou morar em uma GH.

- G O QUE?

Foi quando ele começou a explicar tudo, disse que tinha sido selecionado para jogar em um time - uma equipe chamada IMP, da qual os muitos que acompanham o cenário ainda devem se lembrar. Acham que foi fácil?

Discutimos muito: o pai dele e eu não estávamos entendendo nada. Felipe, aos nossos olhos, teria uma vida estável em uma carreira militar. Ao invés disso, ele estava ali, na minha frente, tentando explicar de todas as maneiras como aquilo era importante para ele. Em uma das brigas, ele virou pra mim e disse: “Você não pesquisa? Você não é educadora? Então tenta entender o meu lado, estude para saber o que é tudo isso!”.

YoDa na época em que jogava pela IMP esports | Imagem: Reprodução
YoDa na época em que jogava pela IMP esports | Imagem: Reprodução


Dizem que para algumas mudanças drásticas em nossas vidas, precisamos de alguns tapas na cara. Honestamente, não foi nada fácil ouvir aquilo do meu próprio filho... Mas tomei a pergunta com humildade e fui atrás de, finalmente, entender o que eram os esportes eletrônicos. Foi aí que vi como aquele mercado ainda era precário no Brasil. Poucas marcas, poucos patrocínios, times amadores. 

Decidi então que precisaria entrar de cabeça naquilo se eu quisesse realmente ajudá-lo, até mesmo para que ele não sofresse o que eu sofri. Quando decidi que faria educação física na faculdade, ouvi que morreria de fome. Se eu havia chegado tão longe por mim mesma, eu poderia ir ainda mais adiante pelo meu filho.

As preocupações eram muitas. Ele teria uma carteira de trabalho assinada? Seria registrado como o que? Jogador? Atleta? Streamer? Ninguém nem sabia ao certo o que era um streamer naquela época. Muita gente nos questionou. As pessoas da família perguntavam assustadas e bravas: “Seu filho vai ser o que da vida?”, “Você deixou ele seguir esse caminho?”.

No olho do furacão, aos poucos as coisas foram se ajustando. Conversei muito sobre o cenário com o Ray Neto (dono da IMP), enquanto Felipe - que aos poucos tornava-se cada vez mais YoDa - viu as dificuldades do cenário e aprendeu a passar por cima de cada uma delas. Entendi como funcionava o mercado, as streams começaram a ter cada vez mais espectadores e o lado insano, criador e empresário do YoDa que todo mundo conhece surgiu.

Ouvi várias vezes que eu era louca. Hoje, nós mostramos que somos muito loucos pela mesma paixão: os esports.

Comecei a registrar os bordões do Felipe como o Seh Loiro e o ÉOQ, porque entendi que aquele seria o patrimônio do YoDa. Daquela maneira, ele conseguiria ganhar dinheiro com segurança caso algo desse errado em sua jornada.

Adriana registrou todos os bordões de YoDa como marcas | Imagem: Reprodução
Adriana registrou todos os bordões de YoDa como marcas | Imagem: Reprodução


Daí em diante, passei a estudar, produzir e trabalhar ainda mais. Fiz cursos para entender o funcionamento de ferramentas como o Analytics, para que eu pudesse ajudá-lo a mensurar os números de todo o conteúdo que ele fazia. Abri uma network de streamers e cuidei da imagem de várias pessoas do cenário que vocês conhecem, como SkipNHO, Jukes, Jovirone, Daniels, Toboco, Tixinha, Bida, Hastad, Aline e muitos outros.

Desde então, estive ao lado do YoDa para tudo. Do YoDa - e não do meu filho. Perdi as contas de quantas vezes conversamos sobre os resultados de suas streams, acompanhamos o crescimento de suas redes sociais, sentamos para discutir planos de negócios. Juntos, lançamos um aplicativo, produzimos um talk show, cuidamos de projetos sociais e educacionais. Vi ele entrar e sair de times, ser campeão, começar e terminar objetivos.

E sempre soubemos separar muito bem Adriana e YoDa de Mãe e Filho. Mas o que é natural para nós, quase nunca foi para os outros. Sou mulher e mãe - e me orgulho muito disso. Mas por esses papéis, já fui muito desvalorizada e desacreditada. No início, temendo não ser levada a sério pelo mercado, escolhi não revelar para o mundo que eu era a mãe do YoDa. Eu era a sócia, empresária, assessora, qualquer coisa dele, mas mãe não.

Um dia, depois de ter feito um projeto inteiro, fui apresentada a um homem como “mãe do YoDa”. Ele virou para mim com desinteresse e disse: “Ah, você é a mãe do YoDa? O que você faz?”.  Meu nome é Adriana Piller Noronha. Como mãe ou empresária, é assim que eu me apresento, e apesar do meu nome encabeçar o projeto do qual estávamos falando, eu passei de empresária para uma imagem estereotipada de mãe que só está ali para acompanhar ou proteger o filho.

“A mãe está lá em casa. A sócia do YoDa está aqui. Inclusive, fui eu quem fiz toda a parte operacional deste projeto que você está vendo”, foi o que eu respondi pra ele. 

Imagem: Beatriz Coutinho
Imagem: Beatriz Coutinho


Também houveram vezes em que por questões de negócios, eu fui firme, persisti em minhas ideias e disse não várias vezes. Isso rendeu comentários como: “Será que ela sabe mesmo do que ela tá falando?”, “Ah ela é mãe dele, está brava assim só porque quer protegê-lo!” e por aí vai.

Eu amo meu filho e tenho muito orgulho de quem ele é. Mas não posso ser reduzida a apenas “mãe do YoDa”. Trabalhei e estudei muito para chegar onde estou hoje. Sou mulher, mãe, empreendedora, consultora, educadora, gerente de diversos projetos, inquieta, inovadora e apaixonada pelo que faço.

Hoje, sou Head de Planejamento e Operações da nøline, empresa de consultoria e conteúdo voltado para o mercado de games, sócia da Live Arena, instituição que promove cursos para futuros pro players, criadores de conteúdo e cosplayers, e Diretora de Operações da SehLoiro que cuida da criação, registro, licenciamento e assessoria de marcas de influenciadores e pro players.

Além disso, atualmente gerencio um dos maiores projetos da minha vida: o YoGamers do Bem. Essa é uma iniciativa totalmente voltada para a área da educação e do voluntariado, que inicialmente contará com unidades em três cidades, Pedro Leopoldo, Lagoa Santa e Confins.

O plano é colocar em prática a inclusão e transformação sociocultural para incluir jovens de escolas públicas no universo dos games e esports, principalmente aqueles que não tem condições e oportunidades de saber como funciona esse cenário. A SehLoiro oferecerá os melhores periféricos, monitores e diversas outras ferramentas necessárias para levar inclusão e incentivo ao maior número de pessoas possível.

Tudo isso será realizado em parceria com o BH Airport, que ficará responsável pelo transporte e alimentação dos alunos, que poderão contar com este curso para ir além da formação da escola.

Foi com educação que eu me tornei quem sou e é com ela que vou transformar a vida das pessoas.

Eu sou Adriana Piller Noronha, muito prazer.



Beatriz Coutinho é repórter do Versus e aprendeu MUITO conversando com a mulher incrível e competente que é a  Adriana. Siga-a no Twitter em @biaacoutinhoo